Ponte Preta, campeã da Série C. Ou a saga de libertação de um povo que nunca perdeu a fé!

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Não existe gosto mais saboroso do que o da libertação. Desprender-se de amarras que sufocam sonhos, adiam planos e impedem avanços. Ficar preso ou subjugado é sentença de paralisia. A sua confiança morre e não há esperança que sustente. O futebol é o palco ideal para tais sentimentos.

Coloque-se no lugar do torcedor da Ponte Preta. Por longos 125 anos não sentia sua paixão transformada em frutos. O seu amor parecia incompreensível para aqueles que viam à distância. Times eram formados, craques eram revelados e nenhuma taça relevante aparecia no horizonte. Em 1977, o time treinado por Zé Duarte encheu os olhos e parou no ímpeto corinthiano de querer acabar com o tabu de 23 anos sem títulos. Dois anos depois, o tormento parecia que iria ser extinto. Como duvidar da equipe que tinha vencido o rival Guarani em dois jogos de semifinal? Pois é. Não deu. Corinthians campeão. De novo.

O ano de 1981 é tratado com carinho pelo torcedor pontepretano. A equipe ganhou tudo nas categorias de base, venceu o Guarani em dérbi válido pela final do primeiro turno e parecia fadado à glória na Taça de Ouro. Nova frustração. O São Paulo lhe tirou o Paulistão e o Grêmio o Brasileirão.

Os anos transcorriam no rio da vida e não faltaram craques e boas campanhas. Washington, Mineiro, Luis Fabiano, Fábio Luciano… Sobravam bons valores. Faltava algo entalado na garganta. É, a taça não surgia.

Eu respeito que não processa nenhuma religião. Só que custo a acreditar que o roteiro da existência é feito de modo aleatório.

Relembre este ano de 2025. A Ponte Preta começou o ano humilhada pelo rebaixamento na Série B do Campeonato Brasileiro ocorrida no ano anterior. Formou um time para se reerguer. A parte inicial do plano deu certo. Boa campanha no Campeonato Paulista. Os 22 pontos não foram suficientes para alcançar a fase decisivo porque Palmeiras e São Bernardo marcaram um ponto a mais. O desempenho foi suficiente para proporcionar a confiança na Série C.

O filme da Macaca era exibido sem intercorrências. Até que surgiram bloqueios judiciais feitos por ex-dirigentes e por pessoas que trabalharam no clube. Sem dinheiro, a Macaca não conseguiu pagar jogadores, comissão técnica e funcionários, muitos ordenados modestos. Mesmo com R$ 10 milhões na conta bancária, os dirigentes atuais ficaram de mãos atadas. E foram pressionados. De maneira simultânea, jogadores pediram para sair. O técnico Alberto Valentim aceitou proposta do América Mineiro e foi embora. Sem dinheiro, time, confiança…O que fazer?

O desespero promove lances geniais. O coordenador de futebol, João Brigatti, lembrou do nome de Marcelo Fernandes, demitido pela porta dos fundos pelo rival Guarani. Se a Ponte Preta fosse uma novela, a virada seria servida de bandeja.

Um técnico ferido em seu orgulho, jogadores sedentos por comprovarem o seu valor e uma torcida disposta a apostar no triunfo, nem que fosse necessário ir às ultimas consequências. Deu certo. Marcelo Fernandes, com jeito boleirão, enfileirou uma vitória atrás da outra. Disputou o quadrangular do acesso e subiu com duas vitórias sobre o Guarani. Acumulou 13 pontos e ganhou a final de presente.

O que se viu na tarde de 25 de outubro não foi uma decisão de campeonato. Foi muito além. As arquibancadas se constituíram o espaço para a Ponte Preta fazer um acerto de contas com a sua história. De proporcionar uma sensação única ao seu povo: a de levantar uma taça.

Opa, espere.

A Ponte Preta é tão singular e diferente que não foram realizadas as cerimônias cafonas de premiação. A Macaca foi diferente. O seu povo queria marcar território. Invadiu o gramado. Queria beijar e abraçar os seus libertadores, os seus heróis, entre eles, o armador Elvis e o goleiro Diogo Silva.

Ali, naquele espaço e palmo de chão não existiam mais jogadores. Quem pisava era o povo sofrido machucado e dilacerado por anos e anos de sofrimento. O apito final do árbitro foi como a aplicação de um remédio redentor. Tudo sacramentado. Acabou. A Ponte Preta é campeã.

Um pouco de má vontade e vão surgir os argumentos de que o título não deve ser valorizado porque é de terceira divisão. Então, se você diz isso não entende de vida, coração, sentimento e de Ponte Preta.

Porque antes do patamar da conquista, o que torcedor pontepretano queria era sentir o sabor da liberdade. De estar sem as correntes do baixo astral, do pessimismo, da falta de perspectiva.

Hoje, tudo mudou.

A Ponte Preta e o seu torcedor podem e devem exaltar não somente o sentimento de ser pontepretano, mas os frutos gerados. Conquistar um título é ótimo. Saber que essa conquista representa o fim de um pesadelo e o início de uma nova era é bom demais.

Parabéns Ponte Preta!

 Viva o futebol!

Este esporte emocionante vai respirar enquanto a paixão permanecer no coração de torcedores genuínos. Como os da Associação Atlética Ponte Preta. Que o sonho nunca acabe!

(Artigo escrito por Elias Aredes Junior- com foto de Marcos Ribolli)