Análise: A resistência ao técnico estrangeiro e a falta de conhecimento do próprio Brasil

0
770 views

Acompanho o noticiário de um evento realizado na CBF. É o segundo Fórum Brasileiro dos Treinadores de Futebol. Um tempo para discussões e reflexões. Eis que duas declarações ganham destaque. Uma de Emerson Leão e outra de Oswaldo de Oliveira. O primeiro sustentou que não gosta de treinadores estrangeiros e que o culpado pela invasão é do próprio técnico brasileiro. O técnico campeão pelo Corinthians em 1999, no Brasileirão e pelo Mundial de 2000, por sua vez, disse algo idêntico, mas ressaltou que com Carlo Ancelotti no comando, ele vai torcer na Copa do Mundo. Depois o seu desejo é por um profissional nativo.

Estamos em uma democracia e cada pensa aquilo que quiser. Mas repudiar os profissionais do exterior é negação da própria característica de formação do Brasil. Ora, se o jogador brasileiro é ovacionado pelos quatro cantos do mundo, é porque, na maioria das vezes, ele é uma mistura de raças. E negros na sua predominância. Que sofreram com a escravidão e até hoje lutam para que seus direitos sejam preservados.

Faça um passeio pelas ruas de São Paulo. Veja a presença e a influência das colônias portuguesa, italiana e japonesa em cada rua e residência. Um dia milhares destas pessoas desembarcaram por aqui para ganhar o seu pão e foram recebidos de braços abertos. Jamais renegados. De quebra, até fundaram clubes até hoje presentes no coração e na memória de muitos: Portuguesa, Palmeiras…

O posicionamento defendido por Emerson Leão, Oswaldo de Oliveira e de outros profissionais demonstra não só resistência ao profissional do exterior e sim desconhecimento da história do Brasil. Ouso dizer: do próprio futebol nacional. Pergunte a estudiosos da história do São Paulo e conhecerá a influência do húngaro Bella Guttman para a formatação do São Paulo campeão paulista de 1957 e que de certa forma influenciou Vicente Feola, técnico campeão do mundo em 1958 e auxiliar técnico do treinador húngaro. Será que o palmeirense esqueceu que um dia teve o argentino Nélson Ernesto Filpo Núñez, que dirigiu a equipe de Palestra Itália na década de 1960 de maneira brilhante? Não, não esqueceu.

Os amantes do futebol desejam que os treinadores brasileiro dirigissem suas energias para questões mais práticas, como as condições de trabalho oferecidas pelos clubes, o atraso tático em relação a outras escolas e a falta de inserção de profissionais negros na carreira. Sim, é preciso colocar o dedo na ferida. Hoje, a divisão de elite tem Jair Ventura no Vitória(BA). Muito pouco. Quase nada. E para aqueles que dizem que o critério deve ser competência, eu digo: como demonstrar eficiência se não existem oportunidades? Pois é. Esta deveria ser uma preocupação de todos que sentam no banco de reservas.

Ao invés de desejarem fechar a porta para alguns, o que os treinadores brasileiros deveriam fazer é empunhar a luta daqueles que estão excluídos da profissão. Seria saudável. Quanto aos técnicos estrangeiros, que eles trabalhem e aproveitem a generosidade e o calor humano do nosso povo. E ajudem a melhorar o futebol brasileiro. Precisamos. Muito. 

(Artigo escrito por Elias Aredes Junior é técnico)