Alguns esportes me atraem por caracteristicas peculiares. Pegue o exemplo do surfe. Não entendo bulhufas das suas regras, mas os campeões não podem deixar de ostentar uma qualidade: persistência. Não é incomum, o surfista contar com a melhor prancha, a mente fresca e confiante e eis uma onda engole planos, sonhos e projeções. Então, é preciso voltar a terra, reagrupar a equipe, receber novas instruções e seguir em frente.
O Guarani é o surfista do futebol brasileiro. No ano passado, tinha a perspectiva de morrer na praia e não conseguir qualquer êxito nas ondas da Série C. Trocou técnico, executivo de futebol e parecia talhado para pegar uma onda gigante e se habilitar para a praia da Série B. Deu tudo errado. As duas derrotas no clássico campineiro e o vacilo diante do Náutico no Brinco de Ouro transformaram o sonho em pesadelo.
Este enredo agora ganhou um capítulo inesperado. Assim como um surfista prateado ou um milionário de primeira viagem, o Guarani fez um investimento pesado na atual janela, sendo que os nomes mais expressivos são Caíque França, Rafael Donato e Lucca.
Dois fatos devem ser destacados.
Não podemos nos iludir. Contratar um elenco com muitos jogadores acima dos 30 anos tem consequências. A ciência do esporte relata as dificuldades de recuperação de lesões para os atletas acima desta faixa etária. Na Série C pode ser até desprezível tal preocupação devido aos jogos semanais. No Paulistão, não. Serão 35 dias de jogos encavalados e a exigência física será inevitável. Os jogadores estão preparados para tal desafio? E se o time for vitimado por muitas lesões? O elenco está com opções corretas e eficientes? Sim, a pergunta é chata, inconveniente. Mas será preciso ficar atento.
Vou além: com esse elenco, não é delírio imaginar o Guarani como sério postulante ao acesso e ao título. Ficar nas suas primeiras posições, seria algo natural na fase eliminatória. Vem a pergunta: como evitar o salto alto? A humildade estará presente no dia a dia? É o que todos esperam.
Mais: nos bastidores, existe a notícia de que existem investidores que estão no auxílio do financiamento da folha de pagamento. Ok, pelo menos existe agora a perspectiva da fonte dos recursos. Mas o que será dado em troca? Quais os termos do acordo? Não existe almoço grátis. E o torcedor bugrino tem direito de saber quais serão os ingredientes deste prato talhado a levar o time à Série B.
Sobre o cozinheiro Matheus Costa não há fugir da constatação: ele está em dívida com a instituição após perder o acesso e ter somado um ponto em nove disputados diante da rival Ponte Preta. Bem, o defensor de sua gestão, deverá mostrar de imediato de que ele tirou a equipe da rota do rebaixamento e levou o time à classificação. Ok, mas repetir esse argumento ao infinito é apenas uma maneira de buscar a sua absolvição por não evitar o purgatório da Série C.
O que falo agora é constatação. Os últimos treinadores que saíram com alguma credibilidade do Guarani foram Daniel Paulista, Thiago Carpini e Umberto Louzer. Todos eles têm algo em comum: venceram Dérbis. É o modelo ideal de futebol?
Não.
Longe disso.
A realidade é essa. Independente de como entrará em campo no dia 31 de janeiro para disputar o Dérbi 213, Matheus Costa precisa ter consciência de que ele for engolido pela onda do clássico campineiro, não existirá Maya Gabeira ou Gabriel Medina que vão salvá-lo. Que ele esteja ciente do desafio que é treinar o Guarani e alegrar a sua torcida. Caso contrário, a prancha (ou prancheta?) arrisca ficar trincada. Para sempre.
(Artigo Escrito por Elias Aredes Junior e foto de Arquivo Guaranipress)













