Ponte Preta e 2026: a necessidade de encerrar uma guerra com potencial de destruir o clube

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Torcer pela Ponte Preta é como acompanhar um seriado. Momentos felizes, reviravoltas e troca de papéis constantes. O vilão de hoje é o mocinho de amanhã. Quem não tem receio de posar como infalível no domingo pode ser apresentado com a mais tenra humanidade na rodada seguinte.

Já usei tantas metáforas e comparações para definir a Macaca que deveria até parar com tal expediente. O futebol e o seu interior bruto e rude não apreciam a literatura, a poesia, a música bem feita.

Tudo é alto, superlativo e palavras de baixo calão são códigos de conduta. Situação e oposição são componentes de um mundo distópico, em que a realidade paralela tenta vencer o cotidiano.

Em que devemos acreditar?

Na festa inesquecível e na invasão de campo do dia 25 de outubro e a conquista da Série C e na humilhação de ver jogadores, com justiça, adotarem a greve como último recurso para receberem o que lhes é direito.

Pior: existem dirigentes (no plural) e torcedores que apontam a atitude como heresia. Atletas, no fundo, deveriam jogar de graça para essas pessoas. Se pagar o salário, é um favor. Talvez os jogadores ainda acreditem nesta teoria. Jogar e deixar de receber.

Procurar o sindicato? Nada disso. Isso é justo? Injusto? Nada disso. É distópico. Fora de ordem e de propósito. Como é algo sem rumo acreditar apenas e tão somente em acordos verbais. O que está escrito não vale.

Não existe relação de patrão e empregado e sim de uma pessoa que concede a graça de vestir a camisa e do outro lado uma pessoa que corre, batalha, luta pelo pão de sua família. Ah, os jogadores de futebol não são confiáveis. Pode até ser verdade. Mas a manutenção da credibilidade da instituição, a sua história e decência deveriam ser prioridade.

Nos dias que antecederam a reapresentação, muitos torcedores decidiram ignorar o drama. Preferiram lembrar do título da Série C. É como querer servir café com um bode na sala. Não dá para fugir contra a maré.

Cobrir a Macaca, retratar os seus fatos e contexto está cada vez mais difícil e desafiador. Falar de reforços, projeções para o ano é perda de tempo diante do quadro apresentado.

De um lado, temos uma  turma da situação com títulos, é verdade, mas sem generosidade, cordialidade, compreensão e espirito genuinamente democrático. Um grupo que  promoveu reformas no Majestoso, que melhorou o clube, mas que infelizmente peca no trato pessoal, na troca de ideias. Não, não coloque a culpa em apenas uma pessoa.

Ficar em silêncio e tomar decisões e tão danoso quanto projetar a voz em defesa de legados que deveriam ser coletivos, nunca individuais. Se um tem o procedimento inadequado ou falha em determinados aspectos, isso acontece porque tem o respaldo silencioso de conselheiros e associados que em nome da vitória aceitam, aplaudem e aprovam o argumento bruto, a ideia narcísica, pronta a apagar qualquer colaboração alheia. O atual grupo político que comanda o clube pode até ser campeã paulista e chegar entre os quatro da Série B. Mas isso não apaga o essencial: a Ponte Preta é do povo. E o povo brasileiro é nobre e rico em fineza, educação e com capacidade de aglutinar os diferentes.

Seria um tempo para a oposição se reerguer? Apresentar novos projetos? Nada disso. Infelizmente, os homens ricos, bem sucedidos e frequentadores das melhores rodas sociais de Campinas não querem lutar pelo poder. Não querem fazer a boa política e mobilizar com argumentos uma instituição centenária. Seja Ponte Pode Mais ou DNA Pontepretano, o que prevalece em seu interior são quadros com desejo de receberem o clube de mão beijada. Com tapete vermelho estendido. Querem ser convocados e entrarem no clube como salvadores da pátria. Nada mais piegas.

A oposição e seus apoiadores, nas conversas intramuros e por telefone, acusam a atual situação de medidas temerárias. A atual gestão idem. Utilizam as atitudes das gestões anteriores como um salvo conduto de absolvição de tudo de ruim que ocorre desde janeiro de 2022.

Neste ringue verbal, falta o árbitro: o poder judiciário. Se existe algum problema administrativo do passado, que seja denunciado e os responsáveis punidos. Se a atual gestão tem pecados, que eles sejam expurgados pelos tribunais.

O que não dá é todo começo de ano, uma briga eterna ser renovada enquanto a instituição definha, sofre, chora, derrama sangue.

A Ponte Preta não precisa de heróis. Não precisa de pessoas (no plural) que se considerem detentores de todas as virtudes. A Macaca precisa de gente humilde. Para recomeçar do zero. Com pés no chão. E confiança no futuro.

(Artigo de Elias Aredes Junior-com foto de arquivo Pontepress)