“Tá feliz com a Ponte Preta doutor Pedro?” Por Pedro Benedito Maciel Neto

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Eu estava na fila do Varejão OBA em Sousas, cumprindo importantíssima tarefa que me foi confiada pela Celinha: comprar bananas, morangos, e suco de laranja.

Eu estava distraído na fila, pronto para pagar a compra, quando ouvi a pergunta que uso como título desse artigo; achei que ele estava brincando, mas não estava, o sujeito estava bravo comigo de verdade.

Quem me fez a pergunta: “Tá feliz com a Ponte Doutor Pedro?”, foi um colega do conselho, torcedor apaixonado pela PONTE, alguém que, há décadas, encontro no Majestoso.

Ele me responsabilizou pelo estado de coisas na PONTE: dividas aos milhões, rebaixamentos, etc.

Me senti injustiçado, pois, nunca fui diretor e nunca tomei qualquer das decisões que nos trouxeram, se não no fundo do poço, pelo menos, à beira do precipício.

Vou contextualizar para que o paciente leitor do CORREIO possa compreender e me julgar.

Antes das eleições de 2021, aquelas que levaram o empresário Marco Eberlin à presidência da Ponte, o candidato da situação – campo em que eu estava -, era o executivo Eduardo Lacerda, pessoa altamente respeitável e capaz; o pré-candidato da oposição, o então juiz Luiz Antônio Alves Torrano.

A PONTE PRETA estaria bem servida independentemente do resultado das eleições.

O Torrano, apesar de bem mais velho que eu, foi meu colega de turma na faculdade de Direito da PUC Campinas nos anos 1980; ele já era professor na faculdade de Letras; foi também meu vizinho por mais de dez anos e é alguém que eu vejo como amigo.

Eu ainda esperava ser convidado pelo coordenador da chapa da situação ou pelo próprio Eduardo para compor o conselho, mas o convite nunca veio.

E, para minha surpresa, o advogado Gustavo Valio – de quem tenho as melhores lembranças, desde o Clube Fonte São Paulo (eu o conheço desde que ele tem menos de dez anos, até a universidade, eu era professor da UNIP quando ele era um brilhante acadêmico), esteve no meu escritório com o coordenador da chapa da oposição, o Marco Eberlin; eles me convidaram para compor o projeto da oposição, que seria capitaneado pelo Torrano, me convidaram para assistir à apresentação do projeto, o que ocorreu no clube da Vila Marieta; o projeto foi brilhantemente apresentado pelo Rafael Mangabeira, que me empolgou muito.

Eu os ouvi, mas não assumi nenhum compromisso, precisava conversar com o Sergio antes, mas fiquei tentado porque quem presidiria a PONTE seria o Torrano.

Os dias passaram e estive no gabinete do Torrano no Fórum, que os mais novos chamam de “Cidade Judiciária”, e ele confirmou que se aposentaria e disputaria a presidência da PONTE; fui conversar com o Sérgio Carnielli, por quem tinha e tenho enorme respeito e gratidão.

Contei para o Sérgio sobre as visitas ao meu escritório e ao Torrano, disse que o Torrano era meu amigo, Etecetera e tal.

O Sergio me ouviu, não me pediu para apoiar o Eduardo Lacerda, não fez ressalva alguma em relação ao Eberlin, falou bem do Torrano e, como não fui convidado pelo coordenador da Chapa da situação, me vi liberado e assumi a campanha do Torrano, baseado na benquerença que tenho por ele e no projeto apresentado pelo jovem Rafael Mangabeira, que, se não me engano, é primo do “Manga”, o Thiago Mangabeira Albernaz, amigo de um dos meus filhos.

Novas reuniões ocorreram entre eu, o Valio e o Eberlin e eles, em nome do Torrano, assumiram dois compromissos comigo: (a) se comprometeram que eu seria o presidente do conselho e (b) que eu teria liberdade para criar um grupo de trabalho para implantar um sistema moderno de “governança”, ou seja, é um sistema de direção, monitoramento e incentivo que alinha os interesses da associação, dos conselheiros, gestores e demais partes interessadas (stakeholders) para gerar valor sustentável, focando em equidade, transparência, prestação de contas (accountability) e responsabilidade corporativa.

O que aconteceu depois quase todos sabem: o Torrano desistiu da candidatura, o Eberlin acabou sendo eleito presidente, eu não fui conduzido à presidência do conselho e nunca me foi autorizado montar o grupo de trabalho para criar um projeto de governança.

Diante desses fatos apresentei minha renuncia à condição de “conselheiro eleito” e me mantive como conselheiro nato-suplente, esperando a minha vez.

O tempo passou, segui na minha vida medíocre, trabalhando todos os dias.

Chegaram as eleições de 2025.

Não fui convidado, nem pelo Torrano, nem pelo Eberlin, nem pelo Sérgio, nem pelo Eduardo para participar do processo eleitoral; o Torrano foi eleito presidente, o Eberlin vice-presidente; eu sigo fora do conselho, fora da mesa do conselho, fora da diretoria; sigo sem interlocução com o Carnielli, com o Eduardo Lacerda e não fui sequer convidado para a posse do meu amigo Luiz Antônio Alves Torrano e mesmo assim fui cobrado na fila do varejão.

Voltemos à fila no Varejão OBA.

Olhei para o meu colega torcedor e conselheiro, pronto para explicar tudo isso para ele, mas pensei bem e desisti, apenas sorri, me fiz de desentendido, segui em frente, paguei a compra, acenei para o colega e voltei para casa com a banana e o suco de laranja, não tinha morango.

Essa é a história de hoje, espero que o meu colega da fila do varejão leia o SÓ DERBI.

Pedro Benedito Maciel Neto, pai, avô, advogado e pontepretano, sócio da www.macielneto.adv.brpedromaciel@macielneto.adv.br – autor de “Reflexões sobre o estudo do Direito, ed. Komedi, 2007; “Tensão entre os poderes”, ed. Apparte, 2024, dentro outros.