O Brasil é um país esquisito. Muitos pregam meritocracia, desde que seja para o seu adversário. Em qualquer área da vida. Para alguns, após chegar ao topo da sua área de atuação profissional, não há necessidade de continuar com trabalho de excelência. Basta relembrar os feitos do passado e a coroa permanece por osmose. Neymar, astro do futebol brasileiro e mundial, quer disputar mais uma Copa do Mundo em cima deste preceito brasileiro, que eu chamo de “Síndrome da Cadeira Cativa”.
Está presente em todos os setores da sociedade brazuca. Poderia citar cantores ou cantoras que querem ser tratados como divindades em cima de um único sucesso emplacado, muitas no início da trajetória. Nas artes cênicas, atores que foram protagonistas no passado, perderam o bonde da história e mesmo assim querem camarim exclusivo. Não aceitam serem coadjuvantes.
Tal síndrome atinge profissionais liberais. Advogados, engenheiros e arquitetos tinham ideias criativas e inovadoras nos anos iniciais da profissão. Depois, abraçaram a mediocridade e não aceitam que estão obsoletos. Consideram que o auge é eterno. É de bom tom citar políticos que há 20 ou 30 anos comoviam as massas e tinham percentuais de votos que atingiam dois dígitos. Viraram nanicos e querem ser tratados como estadistas. Ou seja, uma vez no topo, para eles, a posição é vitalícia, mesmo que não consiga entregar mais nada.
Neymar não inventou a roda. Ele reivindica para si a primazia existente nas ruas, salões e espaços do país. Suas credenciais: um futebol de excelência de 2010 a 2020 (alguns apontam até 2022), em que seus dribles, arrancadas, arremates e força mental partiam em pedaços os adversários. Hoje, a realidade mudou. Continua um exímio finalizador, mas seu estado físico está longe de atender a um futebol exigente e dotado de uma intensidade e um preparo físico que beira a insanidade. Não importa. Para os adeptos de Neymar, ele tem direito a cadeira cativa. Sem fazer nada. Ao declarar que não precisa “provar nada a ninguém”, Neymar, indiretamente, também reivindica a cadeira cativa do futebol nacional.
Um comportamento que contrasta com outros ícones da modalidade. Messi foi campeão do mundo pela Argentina aos 34 anos e em alto nível. Foi decisivo em uma final eletrizante com a França. Cristiano Ronaldo, aos 41 anos, se dedica para alcançar o gol de número 1000 e disputar a sua sexta Copa do Mundo. O que motiva essas lendas? Ambos sabem que a luta pela manutenção no topo é diária. Incessante. A cadeira só é cativa com produção e regularidade.
Carlo Ancelotti trabalhou nos quatro cantos do mundo. Conseguiu faturar cinco Liga dos Campeões e cinco taças das principais ligas. Ele sabe como ninguém que o cume do futebol mundial é para quem é perseverante e permanece em alto nível. Outra cultura. Outro enfoque. Carleto avisou: só vai para Copa do Mundo quem estiver em ótima condição física e técnica. Nada de cadeira cativa. Duro é saber se Neymar vai captar a mensagem ou assistirá a Copa pela televisão. Hoje, a segunda opção é a hipótese mais palpável. No sofá de sua casa. Sem cadeira cativa.
ELIAS AREDES JUNIOR












