Especial: Maradona e a ligação com seu povo e sua gente. Algo que nunca vi no futebol campineiro. Uma pena

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O falecimento de Diego Maradona mexeu com todos os apaixonados por futebol. Fez a qualquer um sentar e pensar. Sua história, conexões, decisões, vitórias ou fracassos fez com que cada um de nós refletisse sobre como encaramos o futebol. E o que queremos dele.

Um garoto pobre que nasceu na Vila Fiorito, descoberto no Argentino Juniors, explosivo no Boca Juniors e Barcelona e mitológico no Napoli. E que virou deus com a camisa da Argentino.

Tudo no campo esportivo. Ele foi além. Do seu jeito lutou pelo seu povo. Não esqueceu-se dos necessitados, desvalidos. Produziu uma conquista de Copa do Mundo quando a Argentina passava por seu momento de maior crise econômica. Quando parou de jogar, após sair de um período de trevas e confusões, passou a olhar com carinho a América Latina. Preocupava-se com as condições de vida daqueles que estavam na pior. Era componente de um clube formado por gente como Sócrates, Casagrande, Reinaldo, Wladimir, Afonsinho, entre outros. Gente como a gente. E que olha para trás. Que jamais esquece do portão da sua casa. E encontra-se na luta quando fosse necessário. Não é demagogia ou posicionamento político de esquerda. É humanidade.

Parei e constatei: Campinas nunca recebeu ou conviveu com algum jogador sequer parecido. Esqueça o talento. Falo de algo maior e que transcende o gramado. Domingo após domingo, cobrimos e acompanhamos jogadores rápidos para entrarem em seus carrões, celebrarem vitórias, mas incapazes de procurarem saber onde se localiza a região dos Dic´s, o Campo Grande, Ouro Verde. Estão presos em uma bolha. E por lá ficam. A Campinas do topo da pirâmide.

Campinas que em meados da década de 1980 tinha 600 mil habitante e dobrou de tamanho. Os problemas também. Pobreza, desemprego, desigualdade social, insensibilidade para a carestia, ruas cheias de moradores de rua. Nada afeta esses jogadores. Ouso dizer: não afetava ou comovia muitas das lendas das décadas de 1970 e 1980. Campeões no gramado, sem dúvida. E desconectados de uma selva urbana especializada em perpetuar violência e truculência.

“Devemos falar apenas de futebol”. É a frase que ouço de diversos campineiros. Lamento. Não, não caia na esparrela de achar que empatia, participação comunitária é algo ligado a esquerda. Não seja despolitizado. Uma pessoa conservadora pode muito bem fazer a diferença e atenuar o sofrimento de quem não tem nada. Basta querer.

Ao ver na televisão, homens de rosto corroído pelos anos de sofrimento declararem que Maradona nunca “virou as costas para a gente”, tive inveja. Eles pranteavam pela perda de um herói e um irmão de causa.

Em Campinas, nos acostumamos a conviver com jogadores de futebol e suas declarações burocráticas  e atitudes desprovidas de conexão com um lugar contraditório, complexo, mas cheio de humanidade. E que quer receber apenas um afago, um aceno, no estilo: “Estou aqui. Pode contar comigo”. Não há e nunca existiu nada neste sentido. E não sei se existirá. Uma pena.

(Elias Aredes Junior)