domingo , 18 novembro 2018
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Ficção: Uma conversa no céu entre Giba e Carlos Alberto Silva

O começo foi duro. Nova vida, novos amigos, ambiente diferente daquele que conviveu por quase 50 anos. Carlos Alberto Silva é novo na área. Levou na mente as recordações do passado, os título obtidos por clubes, os amigos que fez no mundo da bola.

Era preciso recomeçar de novo. O céu era exatamente como pensava. A Bíblia Sagrada não errou em nenhum detalhe. Isso não extermina as dificuldades.

Tem alguns amigos. O principal chama-se Giba. Este não teve obstáculos para viver a nova etapa. Já tinha um caráter e um comportamento que lhe assemelhava a um anjo. Puro, sem maldade. Carlos Alberto Silva já gostava dele no plano terreno. Virou seu confidente.

Especificamente naquele dia Giba parecia triste, acabrunhado, sem rumo. Com tato e jeito, Carlos Alberto encostou para um bate papo:

– Ei Giba, o que passa? Por que essa cara triste? – disse o novo morador do céu para em seguida emendar-Você está alegre e alto astral todo o tempo. O que acontece?- perguntou.

Giba não perdeu o cacoete do tempo de jogador. Um comportamento retraído, arredio e sem explicação em algumas vezes. Carlos Alberto não desistiu. Queria saber o drama vivido.

– Fala homem! Desembucha e abre essa matraca…

Giba olhou para os lados, viu que estavam a sós, sentou na calçada feita de ouro e disse em tom de voz baixo,  em tom de lamento.

– De vez em quando eu dou uma olhada para ver o calendário lá da terra. Até para ver quanto tempo se passou. E vi que hoje são completados três anos de minha estadia aqui no céu.

A revelação deixou Carlos Alberto Silva atordoado. Até por saber da serenidade do parceiro.

– Ok, eu entendo que deixamos muita gente. Familiares que nos amavam. E nos amam. Deixamos obras por fazer, sonhos para se transformarem em realidade. Mas em  cinco meses que estou aqui eu digo: estamos muito melhores do que no passado. E quem lamenta nossa ausência hoje entenderá no futuro o que sentimos..

– Eu sei, eu sei, aqui é muito bom. Não há parâmetro com o passado. O problema é que vi a data e lembrei de outra coisa

– Do que?

– Melhor não falar. Você não vai gostar professor- disse Giba, sem esquecer a reverência dos tempos do futebol.

– Se você não falar eu jamais vou saber- retrucou o recém chegado.

– Então…É o Guarani

– Hã? O que tem o Guarani? O que o clube te fez? Pode falar. Posso até ficar decepcionado, mas vou compreender…

Como se estivesse pronto a mergulhar em um rio profundo, Giba concentra-se e começa a falar. E parecia que não desejava parar:

– O Guarani me transformou em homem e cidadão. Entrei ali menino e sai um profissional . Nunca deixei de amar e respeitar a instituição. Quando entrei para a carreira de treinador, em todas as vezes que fui convidado nunca recusei. Treinar o Guarani era mais do que uma tarefa profissional. Era uma missão, um sacerdócio…

– Eu te entendo perfeitamente- complementou Carlos Alberto em das escassas brechas permitidas pelo angustiado amigo.

– E foi ali professor que entendi o sentido da palavra milagre. Plenamente.

– Como esquecer o que você fez em 2011?- disse Carlos Alberto.

– Pois é. Eu assumi um time com salários atrasados, brigas políticas diversas, jogadores com vontade de ir embora. Estava sozinho. Alias, éramos eu, Deus e a Comissão Técnica. Sabe o que é convencer um jogador a correr a atrás de uma bola, a lutar por uma vitória e o filho com fome e as contas atrasadas? Consegue dimensionar o sofrimento de um funcionário que ganha salário mínimo e está sem dinheiro para pegar uma condução?

– Eu sinceramente não sei como você conseguiu.

– Nem eu. E lutei por tudo aquilo por acreditar que o Guarani poderia avançar a partir daquele estágio. Ou seja, estruturar-se e buscar um retorno a divisão de elite do Brasileirão e continuar no Campeonato Paulista. Deu tudo errado. Enquanto estávamos na terra, conseguiram deixar o nosso amado Guarani na Série A-2 e na terceira divisão. Desastre atrás de desastre.

– E por que falas tudo isso?- questionou Carlos Alberto.

– Porque apesar de testemunhar daqui o acesso do ano passado, o sentimento de tristeza e frustração não passa. Parece que as pessoas bem intencionadas tem como destino enxugar gelo para o Guarani não sair do lugar. – então Carlos Alberto Silva tentou interromper o discurso e foi interpelado por Giba.

– Calma eu vou terminar…

– Tudo bem

– Seguinte: quando os anjos permitem dar uma espiadinha lá embaixo eu não resisto e busco informações do Guarani. Fiquei muito feliz ao ver que o Vadão está lá. E na Série B. É gente como a gente. Tem história no clube. Respeita a instituição. E se o esforço for em vão como o meu? Se ele conseguir o acesso e no ano seguinte o time  cair de novo? Do que adiantou?- pergunta aflito Giba, já com os olhos marejados e com a fronte cabisbaixa.

Ao constatar o final do desabafo, Carlos Alberto Silva sacoleja a túnica branca e encarna a ênfase das preleções dos tempos de treinador:

– Giba, eu entendo sua decepção. Pense no meu lado. Eu fui campeão brasileiro, semifinalista de Libertadores, fiz boas campanhas mas também senti o dissabor de um rebaixamento. Tem noção do que é isso? Depois que me afastei, muitas vezes fiquei triste e até chorei com os rebaixamentos. Não acreditava o estado em que deixaram o Guarani. Não aceitava que a vaidade destruísse uma paixão tão bonita e cativante…

– E daí?- perguntou Giba, impaciente.

– E daí meu amigo que você não deve se martirizar por isso. A torcida do Guarani, seja aqui no céu ou na terra sabe o quanto amamos e respeitamos o clube. E que se o Guarani não está no estágio adequado não é culpa nossa. Veja, muitos me consideram um ídolo, querem até fazer um busto em minha homenagem. Você acha realmente que a torcida vai nos colocar no mesmo balaio que os outros? Não vai mesmo…

– Mas você o seu Zé (Duarte) ainda tem títulos para exibir…E eu?

– Você um herói da história do Guarani. Conseguiu sustentar o time na Série B apesar de imensas dificuldades. Os dirigentes te sacanearam, lhe enganaram, demoraram para quitar seus direitos e você nunca jamais falou um “A”. Pelo contrário. Você acha realmente que a torcida te esqueceu? Eu duvido. Giba, para o torcedor que está lá na terra você é tão campeão quanto eu. Por favor, tire essa cara emburrada e vamos andar e trocar algumas ideias como nossos amigos. Aqui não é lugar para pensamentos ruins. Só coisas boas…

– É verdade. Tem razão professor- disse Giba, já com o semblante mudado e pronto para desfrutar das coisas boas do céu.

– Tive uma ideia. Vamos dar um pulo na rua do lado. O Zé Duarte está por lá, o Diogo, que jogou e trabalhou no Guarani, o Ricardo Chuffi, o Michel Abib. Vamos recordar o Guarani que vale a pena. Quem sabe a gente inspire os meninos que estão lá embaixo…

– Vamos nessa.

Sorridentes e felizes, Giba e Carlos Alberto Silva passaram a caminhar pelas ruas de ouro do céu. Sabendo que seus corações são alviverdes. Por que o amor nunca morre. Só renova.

(Texto fictício de autoria de Elias Aredes Junior- Uma homenagem ao ex-técnico Giba, que faleceu há 3 anos)

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6 Comentários

  1. Nunca Serão !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    Nem em conversa celestial !!!!!!!!!!!!!!

    • Carlos Alberto Silva MITO !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

      GIBA – Excelente caráter, jogador e técnico !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

      Saudades de ambos !!!!!!!!!!!!!!!!

  2. Elias,

    MAGNÌFICO!

    Giba merecia realmente um texto deste nível.

    Att.

    J.C.Canuto

  3. O GUARANI F C DO PRESENTE É LÍDER DA SÉRIE B !!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    VAMOS BUSCAR NOVAS CONQUISTAS !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    CONHECEMOS OS ATALHOS DAS GRANDES CONQUISTAS !!!!

  4. José Roberto Barreira

    Muito lindo seu texto,quero lembrar de meu Pai bugrino que está junto com eles ,torcendo pelo nosso Guarani

  5. Belo texto ao finalizar a leitura o coração fica apertado. O que fizeram com o GFC? O que mais dói é que muitos responsáveis por este estado ainda frequentam o Brinco e opinam nos rumos do clube como se nada tivesse acontecido.Até quando???

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