quarta-feira , 14 novembro 2018
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Artigo Ficção: Umberto Louzer e o combustível da vida

Mão na maçaneta. Parecia que pesava uma tonelada. Tudo gira lentamente. A chegada em casa é um alivio. A hora de tirar o fardo. Recarregar as energias. Ficar ao lado de quem se ama.

Umberto seguia a risca o roteiro. Naqueles dias difíceis, em que a bola teima em não entrar tudo fica essencial. Necessário. Urgente. O beijo da esposa, o afago da filha, um telefonema de um parente próximo…A doçura da vida serve para eliminar a amargurada da injustiça.

Sentar no sofá não é um instante de descanso. Vira confessionário, a hora de receber um afago e a solidariedade de quem se ama. Abrir a boca era um ato de fé. Queria reclamar, chiar, mas principalmente queria ser compreendido. Amado na plenitude.

– Tem horas que dá vontade de desistir. Tantas dificuldades, obstáculos, sabotagens. E nem um segundo de reconhecimento. O que fiz de errado? Onde foi que errei?- questionava não o técnico do Guarani e sim, o ser humano angustiado.

A esposa não largava um minuto. Olhava com ternura e transmitia a mensagem: vai dar certo. Tudo vai melhorar.

Umberto ouvia. Recobrava a esperança. Imaginava como sair das ciladas da bola. Como andar no banco de reservas sem o peso do fantasma do fracasso.

Um estalo e tudo para. Lembrou da filha. Ela não apareceu. Com ela, a corrida, o sorriso estampado…Nada disso aconteceu. O grito ecoou pela sala em um misto de saudade e carinho infinito:

– Filha onde você está?

Resposta inexistente. Umberto levanta, anda com passos apressados pelo corredor apertado da residência o e abre a porta do quarto da filha. Um pequeno reino. De sonhos, de encantos.

Ela não vê quando o pai rompe pelo aposento. Está deitada. De bruços. Cara de frente ao papel. Uniforme da escola ainda no corpo. Dormia. Profundamente.

A lição de casa impressa em papel sulfite ordenava: “Desenhe quem é o herói de sua vida”.

Os olhos de Umberto embaçaram. Só teve tempo de ver os rabiscos mal traçados que exibiam um homem de costas. Uma camisa pintada de verde, o número 10 desenhado e em cima escrito uma única palavra: Umberto.

Mãos instáveis, teve força para colocar a menina na cama. Não queria acordá-la. Aquele desenho lhe faria sonhar por vários e vários dias. E não haveria derrota que lhe tiraria o sabor da principal vitória da sua vida.

(artigo de ficção de autoria de Elias Aredes Junior)

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