sexta-feira , 20 Abril 2018
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Especial: as razões para o jornalismo com criticidade praticado pelo portal Só Dérbi

Costumeiramente o Só Dérbi recebe reparos sobre sua atuação. Má vontade com os personagens do mundo da bola, criticismo em excesso, falta de otimismo em cima de determinados fatos e por aí.

Eu poderia encerrar o artigo e utilizaria o argumento puro e simples do jornalismo. Deve ser exercido com viés de oposição. Ou seja, investigar, fiscalizar, cobrar posturas, atitudes e denunciar quando for necessário. Para alguns, tal postura é insuficiente. Até entre colegas de imprensa.

Compreendo a postura. Em primeiro lugar, porque não existe tradição no Brasil de um jornalismo esportivo crítico, independente e distante do relacionamento de cartolas, jogadores e treinadores. O caminho é o entretenimento. Isto é, futebol é diversão. Automaticamente, falhas de gestão, vacilos no trabalho de treinadores e posturas equivocadas de jogadores devem ficar em segundo plano.

Criado em 1966, o Jornal da Tarde foi um marco na cobertura esportiva.
Criado em 1966, o Jornal da Tarde foi um marco na cobertura esportiva.

O Brasil teve alguns exemplos esparsos de jornalismo esportivo vigilante. Uma que chamou atenção foi o Jornal da Tarde, fundado no final da década de 1960 e que revelou repórteres da estirpe de Luiz Antonio Prósperi, Cosme Rímoli e Vital Bataglia. E Roberto Avallone deve ser reconhecido nesta aventura jornalística, até por ter sido condutor de uma cobertura sobre a bagunça ocorrida na Copa de 1986 que rendeu Prêmio Esso ao Jornal. Era pauteiro de mão cheia, afirmam aqueles que trabalharam com ele.

A Placar, sob a direção de Juca Kfouri, é outro modelo de jornalismo investigativo. A revelação da máfia de manipulação de resultados na Loteria Esportiva, de autoria de Sérgio Martins, foi um marco na cobertura esportiva, assim como o caderno de esportes na Folha de S. Paulo, o primeiro a realizar uma cobertura extensiva das tramoias de bastidores da política de esporte. O Jornal Lance, com 20 anos de existência e cuja trajetória é retratada em livro de Mauricio Stycer, só obteve relevância graças à mistura de um texto leve e despojado, mas um acompanhamento visceral sobre as sujeiras do poder e das falhas de atletas e técnicos.

Campinas também teve marcos. O Só Dérbi jamais quer se igualar a eles, mas faz questão de seguir a trilha deixada.

Vibrante, criativo e crítico: as marcas do extinto Diário do Povo nas décadas de 1970, 1980 e 1990
Vibrante, criativo e crítico: as marcas do extinto Diário do Povo nas décadas de 1970, 1980 e 1990

O finado Jornal Diário do Povo, nas décadas de 1970, 1980 e meados de 1990, soube fazer uma cobertura vibrante, criativa e crítica sobre os desmandos que aconteciam no estádio Brinco de Ouro, como também no Majestoso. No Correio Popular, a coluna “Só Futebol (E de bastidores!) foi um marco para confrontar as estruturas do poder.

Todo este cabedal jornalístico não impede o Só Dérbi de buscar um relacionamento respeitoso, mas crítico com os alvos de suas análises e reportagens.  Reconheço que nas equipes grandes é difícil estabelecer vínculos entre fontes e  jornalistas. As entrevistas coletivas transformaram a cobertura em algo pasteurizado. Quando isso acontece, salvo exceções, o que o jogador, treinador ou dirigente deseja é cumplicidade com alienação. Em resumo: nada de crítica.

Nada acontece por acaso. A história demonstra diversos casos de jornalistas que, infelizmente, não souberam separar a parte pessoal da profissional e enveredaram por um caminho que hoje seria inaceitável. Como, por exemplo, o cronista Sandro Moreira, que Ruy Castro demonstra na biografia de Garrincha o quanto muitas vezes foi camarada para livrar de enrascadas o amigo de pernas tortas.

A denúncia da Máfia da Loteria Esportiva foi um marco da Revista Placar
A denúncia da Máfia da Loteria Esportiva foi um marco da Revista Placar

Não é um caso isolado. O “jornalismo brodagem” ainda paira sobre as nuvens. Talvez porque o futebol no seu dia a dia reserve algumas armadilhas tentadoras. A possibilidade de dividir um churrasco com um ídolo, a conversa com aquele que é seu alvo de cobertura… Se um jornalista de política fizer o mesmo com um prefeito, governador ou presidente e for descoberto, está incinerado em sua credibilidade. No futebol, querem transmitir a sensação de que é uma tática de sobrevivência. Não é.

A postura gera consequências nefastas. Os erros não são cobrados de modo enfático, dirigentes, técnicos e jogadores ficam acomodados e, no final, é o torcedor quem sempre paga o pato.

O jogador? No fundo, no fundo, não está nem aí. Pensa apenas na sua independência financeira. Merecidamente. Aliás, um adendo: por que devo ser camarada de uma pessoa (técnico ou jogador) que, na maioria das vezes, ganha um salário que 99% de seu público alvo jamais receberá? Só para você saber: de acordo com o IBGE, uma pessoa que ganha acima de R$ 19.080 pode ser considerada de classe A. Em resumo: em 12 meses, são R$ 228.960. Quantos torcedores podem ter em mãos uma quantia dessa? Imagine o treinador ou boleiro que ganha acima de 100 mil. Mesmo com descontos e comissões para empresário, eu asseguro que em dois meses ele fatura muito mais do que qualquer trabalhador assalariado. Merecidamente. Diante disso, precisa fazer jus e ser cobrado, fiscalizado. Porque se não fosse, o torcedor que adquirisse o pay per view, ingressos, produtos e tudo relacionado ao futebol jamais teria a chance de fazer sua vida por intermédio do futebol.

O Só Dérbi e seus componentes não trabalham para agradar jogadores, dirigentes ou treinadores. Sua intenção é trabalhar para que o torcedor receba o melhor retorno possível. Ou seja, vitórias e conquistas. Por que do outro lado, seja pela vaidade inflada dos dirigentes ou pelo bolso cheio por intermédio do trabalho, ganho de forma honesta os personagens da bola já são recompensados de modo pleno.

(análise de Elias Aredes Junior)

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2 Comentários

  1. Parabéns, Elias, pois só vemos chapa brancas atuando por aí…

  2. Elias o exemplo mais claro dessa miséria intelectual que é união entre jornalistas esportivos e clubes de futebol é a “eleição”, na enquete promovida pela Folha, do Caio Ribeiro como melhor comentarista esportivo da TV e de Neto como pior comentarista.

    Se Neto, às vezes, coloca a mão na ferida, o outro nunca criticou alguém ou as mazelas do futebol, é a maior água de salsicha já vista na televisão e, claro, amado pelos profissionais da área.

    O pior mesmo é sabermos que há profissionais (inclusive em Campinas) que sonegam informação em nome do emprego ou do negócio.

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