Especial: como os jogadores Cristãos Evangélicos ajudam a perpetuar (mesmo que indiretamente!)a estrutura caótica do futebol brasileiro

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Alguns temas são delicados. Considerados tabus no futebol. E precisam ser enfocados. Sem preconceito. Ou com mania de perseguição. Apenas para retratar e provocar reflexão. Já passou da hora de colocar a lupa em cima das relações das esferas de poder do futebol brasileiro com os Cristãos Evangélicos que calçam chuteiras.

Queiramos ou não, o comportamento em boa parte das vezes é de um adesismo preocupante e que não colabora em nada para  do futebol brasileiro. Aviso: o autor destas linhas é Cristão Evangélico, frequentador de uma igreja na região de Campinas. Só que não sou alienado ou bobo. Existem pessoas boas, más, manipuladas ou sem personalidade em todos os espaços sociais. No protestantismo não seria diferente.

Quem conhece a história do futebol brasileiro sabe que religiões de matriz africana e o catolicismo estão ligados ao desenvolvimento do esporte. Não como foco de desejo de integração a estrutura vigente e sim como expressão de manifestação popular. Recorde os torcedores nas arquibancadas da Fonte Nova e do Maracanã e você saberá do que falo.

Em reportagem publicada no UOL Esporte no ano passado, Claude Petrognani, Doutor em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), colocou luz sobre o assunto ao afirmar que os Cristãos Evangélicos não tem razão em reclamar de sofrerem preconceito. “Quem sofre não seriam os evangélicos, mas, os futebolistas afro-brasileiros. Dos 100 atletas aos quem submeti um questionário sobre suas afiliações religiosas, apenas um declarou ser da religião da Umbanda”, lembrou.

Para embasar a sua tese, ele afirma que fez levantamento para tese de doutorado nas categorias de base do Internacional e constatou que 34% dos atletas são Evangélicos contra 56 que se declararam católicos, oito disseram não ter religião e um se disse devoto de umbanda e outro se assumiu espírita.

Ou seja, a inserção os Cristãos Evangélicos dentro do futebol brasileiro mudou muita coisa. Trouxe o aspecto divino como fator de respaldo ao poder vigente. Em qualquer área.

E isso não é algo inerente ao futebol. Basta verificar o relatório da Comissão da Verdade presente na Internet e verá a montanha de pessoas Cristãs e protestantes entregues aos órgãos de repressão da ditadura por seus próprios “irmãos”. Em nome de Cristo, pessoas serviram ao poder e ao terror. Fato. Não há como disfarçar.

No atual período democrático, os lideres Cristãos Protestantes, em sua maioria, não adotaram como pilar o Cristo inconformado com o sistema político, que contesta o poder vigente e que arrebenta com os vendilhões do templo. Cristo é transmitido por eles como um personagem dócil, afeito a boas relações com o poder e contra qualquer manifestação em relação a desigualdade de renda ou as injustiças sociais.

Exceções nobres são pastores como Ricardo Gondim, Ed Renê Kivitz, Ariovaldo Ramos e Antonio Carlos Costa, também presidente da ONG Rio de Paz. Coincidência ou não, são perseguidos e combatidos dentro do próprio Cristianismo Evangélico por aqueles ávidos por sentar-se a mesa do rei. Qualquer rei.

O povo passa fome? O que importa para eles é a camaradagem. O que o futebol tem a ver com isso? Tudo. Perguntas objetivas: quantos atletas declaradamente Evangélicos você viu contestar de modo veemente os desmandos da CBF? Poucos.

Quantos se colocam na linha de frente para protestar contra atraso de salários e medidas inconsequentes por parte do Status Quo do futebol? Existem exceções, como o técnico Roger Machado. Culto, inteligente, consciente e ainda dotado de uma fé genuína e atuante. É exceção. Que confirma a regra.

Para o dirigente de futebol é confortável contar com grupos protestantes no elenco. Como o espirito adesista prevalece, o comportamento dos Cristãos Evangélicos é passivo, sem espirito critico e que constrange quem queira fazer o papel de bad boy. Imagino como sofreriam Sócrates, Afonsinho e Paulo César Caju em circunstâncias parecidas.

Alguns pastores têm mais influência do que  empresários. Se o líder religioso for alguém dotado de combatividade e com postura cidadã é algo até positivo, porque ele se colocará ao lado dos atletas na hora das injustiças. Não é o que acontece em boa parte dos casos.

O discurso adotado por estes personagens é o caminho da Evangelização pura e simples e não da adoção completa dos conceitos de Jesus Cristo. Ou seja, alguém indignado com a situação do país e do próximo e que quer participar desta melhoria do país.

Não quero a exclusão dos Cristãos Evangélico do futebol. Pelo contrário. Quero e desejo pessoas  tementes a Deus e que utilizem o ministério de Jesus Cristo para lutar contra as injustiças, que apontem os erros cometidos pelos dirigentes, as necessidades materiais dos atletas carentes ou combata o autoritarismo reinante nos gabinetes. Sei que alguns participaram do Bom Senso. Mas é preciso expandir e incutir o espirito cidadão nas pessoas, independente de sua opção religiosa, que não pode servir, mesmo que involuntariamente, como instrumento de manipulação.

Quando tudo isso acontecer  o jogador de futebol Cristão e Evangélico será em sua totalidade, uma benção.

(Elias Aredes Junior)