Ponte Preta, vitória contra o Linense e a ausência de desafios esportivos de alta complexidade na Série A-2

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A Ponte Preta venceu mais uma partida na Série A-2 do Campeonato Paulista. Aplicou 2 a 0 sobre o time do Linense. A formação era praticamente reserva devido as suspensões de alguns titulares-especialmente o camisa 10 Elvis- e atletas que foram poupados nesta reta final da fase inicial.

São oito vitórias em 10 jogos e qualquer analista teria dados suficientes para se alegrar e festejar a campanha avassaladora na segunda divisão paulista. Independente do que ocorrer nos jogos decisivos já está mais do que claro o favoritismo da Alvinegra para chegar a primeira divisão regional.

Duro é constatar que a felicidade nunca será plena. Nunca o sorriso no rosto do torcedor será 100% satisfeito. A felicidade jamais vai emitir aquele ar vitórioso tipico dos grandes times de futebol. Evidente que o técnico Hélio dos Anjos, jogadores, comissão técnica e dirigentes vão gargantear aos quatro cantos que a campanha é inesquecível e histórica. Afinal de contas, eles vivem o cotidiano, as agruras, dificuldades e obstáculos oferecidos pelos labirintos do futebol. Normal. Compreensível.

O foco aqui, entretanto, não é em cima da ótica daquilo que se vive no dia a dia em um clube de futebol. Eu falo conceito de esporte, do esforço para derrotar o oponente.

Vou utilizar a própria história da Ponte Preta para exemplificar a minha teoria.

Quando a Ponte Preta derrotou o Corinthians no segundo jogo da final do Campeonato Paulista de 1977, não foi apenas a atuação de Dicá e suas jogadas que entraram para a história. Ali, a Macaca derrotou o maior gigante do futebol paulista, louco pela conquista de um título e que tinha por trás um público de mais de 146 mil pagantes. Não foi pouca coisa.

Quando a Ponte Preta derrota o Fortaleza por 2 a 0 na ultima rodada do Campeonato Brasileiro de 2003, a conquista não é apenas esportiva. É a capacidade de sobreviver em campeonato com gigantes e times médios e pequenos dos principais centros do Brasil.

Em 2013, a Ponte Preta bateu o Vélez Sarfield por 2 a 0 em jogo válido pelas quartas de final da Copa Sul-Americana. Na casa do adversário. Não foi apenas isso. A Ponte Preta venceu um gigante do futebol Sul-Americano. Inesquecível. Histórico.

Na semifinal do Paulistão de 2017, a Ponte Preta vence o Palmeiras por 3 a 0 no Majestoso. Além da força da camisa e da tradição, a Ponte Preta derrotou um oponente que já estava na trilha de se transformar uma super potência nacional. Lembre-se que o Allianz Park já existia e era uma máquina de ganhar dinheiro para o clube palestrino.

Compreenderam!? Citei vitórias e conquistas que vão muito além do futebol. Sim, além do adversário qualificado, existia o entorno produzido.

Ok, subir já é uma conquista e tanto. Vamos raciocinar. Nesta Série A-2, a Ponte Preta só teve duas partidas com uma dimensão que gerasse preocupação. A primeira contra o XV de Piracicaba em virtude da rivalidade envolvida. Venceu e convenceu. E o confronto foi diante do Novorizontino, porque é um concorrente direto na Série B do Campeonato Brasileiro.

Nas outras oito partidas, o roteiro é o mesmo: do outro lado, você tem um oponente claramente limitado, que luta, corre, batalha mas em determinado momento sucumbe diante da qualidade técnica dos jogadores pontepretanos ou da estratégia montada.

A resistência, se existe, não é forte o bastante para oferecer um obstáculo intransponível. E foi assim contra o Linense. Em momento algum os donos da casa ofereceram uma conjuntura adversa. E por um motivo: falta qualidade do outro lado.

Diante disso, dá para afirmar de modo claro: o principal adversário da Ponte Preta na Série A-2 é a própria Ponte Preta. E aqui não desejo direcionar qualquer desdém ou desprezo aos concorrentes. Pelo contrário. Mas é a simples constatação. O tempo avança. O quadro muda.

Nas décadas de 1960, 1970, 1980, 1990 era até justificável ficar tenso e preocupado quando a Macaca enfrentava rivais do porte de Linense, Portuguesa Santista, Noroeste, Juventus. Eram outros tempos em que os times do interior estavam quase que no mesmo patamar.

Hoje tudo mudou. Se a Ponte Preta encontra-se muito distante dos principais gigantes e equipes de médio porte médio do futebol brasileiro, também é verdade que a Macaca cresceu e evoluiu e está em outra prateleira em relação aos seus rivais.

Dos componentes da Série A-2, é a única que disputou Série A de Campeonato Brasileiro. A única que disputou competições internacionais e até agora não saber sequer o que é terceira divisão nacional. Há pelo menos 16 está entre os 40 principais clubes do Brasileiro. Quem alcança tal estágio precisa de desafios esportivos mais e mais elevados.

Por isso, devemos cravar: ficar na Série A-2 seria um desastre de proporções inimagináveis. Não somente pela trajetória esportiva mas também porque, na prática, a competição, tem um cardápio restrito de desafios a lhe oferecer.

Que a Macaca derrote a soberba, o orgulho, a empáfia e suba para o lugar que lhe é direito. E no espaço em que poderá ser desafiada a ponto de buscar crescimento e solidez.

Na Série A-2, o time pode até afagar o ego a cada rodada, mas tem muito pouco a extrair para o futuro.

(Elias Aredes Junior com foto de Matheus LA Linense)