A Ciência do Esporte trouxe (muitos!) benefícios ao futebol. Mas os efeitos colaterais não podem ser ignorados. Leia e entenda

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Não existiu um torcedor bugrino ou pontepretano que ficou satisfeito com a qualidade técnica do Dérbi 203. As reclamações são infinitas. Jogadores que erram passes de curta distância, ausência de jogadas de beleza plástica e espaços exíguos para que os atletas talentosos façam a diferença. Foram 90 minutos frustrantes.

Apesar de ter cumprido com sua planificação tática, a Ponte Preta deixou um gosto de quero mais no torcedor. Poderia ser melhor. Tem que ser melhor. Já do Guarani nem precisamos estender o assunto. Técnico interino, ausência de jogadas imaginativas e um empate com sabor de derrota para muitos torcedores.

É o futebol atual.

Pelo menos é o que dizem os saudosistas.

Será?

O atual ambiente do futebol não colabora para o atual estado de coisas? Sim, porque quando existe uma folga no calendário, a prioridade não é treinar jogadas ensaiadas ou pensar em surpresas para o adversário. Aprimorar o condicionamento físico e preparar os atletas para uma intensidade insana é a prioridade número 01.

Não existe qualidade.

Mas todo corre. É um quadro irreversível? Não tem saída? Sinto dizer mas a roda gigante da bola não quer parar e efetuar um freio de arrumação. É muito dinheiro envolvido. São interesses cada vez mais insaciáveis. E uma corrida frenética promovida pela Ciência do Esporte.

A prova de tal cenário foi demonstrada na quinta-feira pelo jornal O Estado de São Paulo.

Em reportagem de duas páginas, o repórter Eugênio Goussinski provou por A mais B que os atletas acima de 30 anos vivenciam uma verdadeira romana quando entram no gramado. O objetivo é retirar sangue. Até a ultima gota. Onde estão as provas? Na ciência do Esporte.

A matéria demonstra que após os 30 anos, os jogadores de futebol perdem 1% ao ano de sua carga muscular. E mais: um atleta jovem precisa de 12 a 18 horas para ficar recuperado após um treinamento de potência muscular enquanto que para um jogador acima de 30 anos o período de recuperação é de 24 a 36 horas. Tudo joga contra.

Querem mais dados?

A reportagem do estadão revela que nos anos 1980, a velocidade média do jogo era de 12 quilômetros por hora e que passou na atualidade para 17 quilômetros por hora. Para completar, a distância média percorrida pelos atletas passou de nove quilômetros nos anos 1970 e 1980 para um percurso de 14 quilômetros na atualidade.

Pegue toda essa receita macabra e misture com o calendário insano. Nos anos 1980, um time em média fazia 50 jogos no ano. Hoje, o patamar para quem está nas principais divisões do futebol brasileiro é de 80 jogos anuais. Não é chute. Ou delírio. É a Ciência do Esporte. Vilã e mocinha ao mesmo tempo do futebol brasileiro. Guarani e Ponte Preta não estão imunes a este cenário.

Veja: por informações da Ciência do Esporte, o auge de um jogador de futebol vai da faixa etária dos 26 a 28 anos. Acima dos 30 anos, além da necessidade de descanso maior, o atleta vive com o fantasma do aparecimento de lesões.

Ou seja, quando um clube contrata um atleta de 30 anos, ele sabe que ele já está com um rendimento com tendência de queda.

Por maior que sejam os cuidados adotados pelo jogador. O principal astro do Guarani é Giovanni Augusto. Tem 32 anos. A estrela da companhia da Ponte Preta é Lucca, também com 32 anos. São profissionais, dedicados e cuidadosos com seus corpos. Mas não podem oferecem o máximo de seu potencial físico e técnico. Este tempo já passou.

Percebam como o cenário é complexo. Como o futebol virou uma máquina de moer gente e ao mesmo tempo abre espaço para uma cobrança incessante por rendimento e vitórias. E sem ligar para o contexto. Algo feito por todos nós. Sem exceção.

Solução? Dificil. Talvez rodar o elenco como fazem os clubes mais ricos. Ou poupar jogadores antes de jogos emblemáticos. Como já fizeram Ponte Preta e Guarani às vésperas de dérbi.

Diante deste cenário é possível cravar: esqueçam as sequências de derbis bem disputados e jogados nas décadas de 1970 e 1980. Coloquem no armário o desejo de ver um futebol de altissima qualidade, tanto no Brasil como em outras parte do mundo, que não possuem o poderio das ligas da Inglaterra, Espanha e Alemanha.

Ali, com elencos milionários, é possível pensar em rodizio de atletas e manutenção do alto nível. Ver bons jogos com times de médio porte no Brasil e no mundo é algo que flerta com o milagre. É preciso não só entender o jogo, como também compreender e aceitar que a entrada da Ciência do Esporte produziu benefícios e prejuízos que são imutáveis.

(Elias Aredes Junior com foto de Álvaro Junior-Pontepress)