Análise Especial: como o VAR auxilia na preservação da condição emocional do árbitro de futebol no Brasil

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Vivemos um debate acalorado sobre o VAR. Muitos contrários e alguns a favor ao árbitro de vídeo, especialmente após os acontecimentos dos jogos entre Botafogo x Internacional (RS) e do Santos diante do Flamengo, ambos os jogos realizados neste final de semana.

O que poucos percebem é que tal tecnologia blinda e preserva os árbitros de fenômenos danosos. O lado humano fica a salvo. Não é pouco.

Tenho 47 anos. Acompanho futebol desde 1980. Perdi a conta das vezes em que domingo após domingo, os erros dos árbitros eram tratados como crime de lesa pátria: “bandido”, “vendido”, “mal intencionado”, “corrupto”. Era o que a gente escutava da boca de jornalistas consagrados. E sem ficar corado por fazer acusações que mexiam com o lado moral e de caráter de gente que abria mão do seu domingo para trabalhar.

Pouco importava se o árbitro era pai de família, filho, irmão. O que interessava era satisfazer a manada. Dizer que o árbitro errou ou é incompetente é uma coisa; mexer com esse lado emocional é diferente. Tenho certeza que muitos árbitros foram acometidos de depressão, síndrome do pânico e outras doenças psicossomáticas diante deste cerco moral. Como aguentar domingo após domingo exercer o papel de Geni e ser obrigado a ficar calado?Sem contar o quanto isso afeta familiares e amigos próximos. Cruel.

E digo mais: muitos desses jornalistas que falam mal e esbravejam sobre o VAR nas redes sociais serão os primeiros a puxarem o coro de assassinato de reputação contra os profissionais do apito se voltar ao sistema antigo. Infelizmente o mundo do futebol exprime aquilo que somos enquanto sociedade: um fracasso. Em todos os sentidos.

Somos insensíveis ao lado fraco do sistema. Sim, é o árbitro. Não é jogador, treinador ou dirigente. É o árbitro.  Daqueles personagens envolvidos no espetáculo ele é o único que não tem vinculo empregatício com ninguém. Não existe árbitro com carteira assinada por Federações e CBF. Àrbitro faz um frila se analisarmos friamente. É o primo bastardo e pobre do futebol.

Como o VAR tem relação com contexto descrito? Tudo. A cada vez que é acionado e evita um erro, mesmo que seja um impedimento por centímetro, o VAR colabora para que um arbitro a menos seja vítima desse massacre emocional que  cerca a profissão. É uma blindagem involuntária contra quem todos os domingos quer “carne fresca” para saciar o leão faminto da opinião pública.

Discordo de quem diz que o VAR desumanizou o árbitro. Pelo contrário. É uma ferramenta para deixá-lo em paz. Somos um bando de animais e irracionais quando o assunto é futebol. A razão precisa prevalecer.

E que fique a reflexão: jornalista esportivo não é torcedor com microfone. É um profissional da área de comunicação que cobre um assunto como quem cobre economia, política ou cultura. É hora de deixarmos de sermos bárbaros. E termos uma relação sadia com o futebol.

(Elias Aredes Junior)