Ponte Preta: dos campinhos às arenas. Por Pedro Maciel Neto

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Pedro Maciel Neto

Vivemos, no âmbito do conselho deliberativo da PONTE e para além dele, um debate sobre a pertinência de construção de uma ARENA em substituição do Estádio Moises Lucarelli. O debate é fundamental, assim como as divergências.

Antes de falar sobre isso farei alguns registros.

Quando eu era criança meu pai dizia: “vamos pro campo?”. Ele se referia ao momento de irmos para o campo da Ponte, o Majestoso, para assistir um jogo da Macaca. Gostaria de ter guardado os ingressos como fez o Totó…

Bem, no caminho até o campo ele contava a história da construção do estádio, os mutirões, a doação dos tijolos, etc., sobre cada um dos jogos que culminou com o titulo de 1969, sobre jogo contra o Santos em 1970 com o Majestoso recebendo mais de 30 mil pessoal e sobre a genialidade de Dicá.

O time de 1969 – montado por Pery Chaib, presidido por Abdalla, então com 36 anos, e dirigido Zé Duarte era formado por: Wilson, Nelsinho Baptista, Samuel, Geraldo Spana (Araújo) e Luizinho (Santos); Teodoro e Roberto Pinto; Alan, Dicá, Djair e Adilson. Também faziam parte do grupo o goleiro Pivetti, o lateral-direito Maurício, os zagueiros Henrique e Dagoberto, o volante Sérgio Moraes, os meias Ailton Lira, Manfrini e Antônio Carlos, os pontas Joãozinho e Zezinho e os centroavantes Orlandinho e Ézio – foi campeão no Pacaembu e não em casa, esse sempre lamentava esse fato.

Essas são memórias do meu pai, compartilhadas por ele e fundamentais para a construção da minha paixão pela Ponte. Eu tenho as minhas próprias lembranças e nas mais felizes tenho meus filhos ao meu lado no Majestoso.

Mas vamos em frente, pois o futebol mudou muito desde a fundação da Ponte em 1900, a construção do Majestoso em 1947 e o titulo de 1969.

O Brasil foi sede em 2014 de uma Copa do Mundo de Futebol, como já foi em 1950, e o longo intervalo de tempo entre as duas copas do mundo transformou o futebol e o papel dos estádios de futebol na escala global e vivemos no âmbito do conselho deliberativo da PONTE um debate sobre a pertinência de construção de uma ARENA em substituição do Estádio Moises Lucarelli.

Bem, o futebol vive uma nova era nas suas relações em razão da economia globalizada. De uma prática com fins amadores, cujo intuito era a diversão para atletas e público, tornou-se um negócio lucrativo, para quem se prepara adequadamente, a nossa Macaca não está preparada para esse momento.

O futebol também passou a ser uma esfera de exploração capitalista, com significativo investimento de recursos financeiros no tipo de entretenimento. Neste panorama, os centenários clubes de futebol que conseguiram sobreviver às transformações rápidas do modelo econômico, atualmente têm marcas valiosíssimas que se não obtiverem visibilidade, não terão lucro, como em qualquer empresa do setor produtivo, é o nosso caso.

Se na sua origem, o futebol brasileiro se caracterizava essencialmente por seu caráter lúdico e pela centralidade de valores como a construção de laços afetivos e de identidade entre os indivíduos, se características centrais do futebol eram o lazer, a diversão, o ócio e a criação de laços de pertencimento entre os indivíduos; se as motivações centrais para a aglutinação das pessoas nos grupos, e sinalizavam para a adesão a um conjunto específico de valores que se expressavam no conjunto de relações e atitudes dos seus membros; se originalmente, um esporte elitista e racista, o futebol é, no século XXI, motivo de mobilização e de expressão de um grande número de pessoas das diversas classes sociais; ao longo do tempo, várias transformações no ambiente das organizações esportivas exerceram forte influência na sua forma de gestão.

Nas últimas três décadas, o futebol atraiu novos tipos de organizações (instituições financeiras, empresas de marketing esportivo etc.) e passou a movimentar grandes cifras, como não ocorria há algumas décadas atrás. Dos US$250 bilhões anuais que, estima-se, o futebol movimenta no mundo, o Brasil contribui com US$32 bilhões, ou seja, o futebol das nossas lembranças mais afetivas não existe mais, perdeu seu caráter lúdico, cedendo lugar a uma lógica mercantilista, tornando-se um futebol-negócio.

Temos que assumir o protagonismo da nossa vida, por isso sou amplamente favorável à (a) construção de um novo Centro de Treinamento, moderno e atrativo, (b) à construção de uma moderna ARENA multiuso, (c) da modernização da gestão, (d) do clube empresa e (e) da democratização das relações entre diretoria, conselho, torcedores e sociedade, pois a inserção da lógica de mercado como discurso dominante em múltiplos setores da sociedade conduz a mudanças nas organizações, das quais não está isenta a PONTE PRETA.

A ressalva que faço é quanto ao método nessa transição, pois, é fundamental: debate, transparência, democracia, respeito, honestidade, compliance, cuidado com os conflitos de interesse e participação de todos. Sem esses elementos toda mudança nos conduz ao caos.

Não se trata, pois, de ser a favor ou contra a ARENA, temos que interpretar os modelos estruturais atuais, as formas de gestão e os processos de tomada de decisão adotados pelas organizações, no contexto que as envolve.

E no cenário do futebol essa assertiva mostra-se adequada na medida em que seus contextos de referência e os valores aos quais ele se subordina se alteraram profunda e velozmente nas últimas décadas.

Negar a necessidade de adequação de nossas ações e interações ao presente, respeitando a nossa história, é banir-se para a margem e, de mãos dadas com a obsolescência, viver de reminiscências.

Pedro Benedito Maciel Neto, advogado, sócio da MACIEL NETO ADVOCACIA – www.macielneto.adv.br ; vice-presidente do Conselho Deliberativo da AAPP – pedromaciel@macielneto.adv.br