Ponte Preta, empate com Sampaio Corrêa e um amor que sufoca

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Como é dificil analisar quando a rotina é instalada! Pobre do analisa que se vê diante do desafio de retratar algo que se repete dia após dia, semana após semana.

E essa é a tarefa para quem se vê diante da missão de analisar tudo aquilo que está em torno da Ponte Preta. O empate sem gols com o Sampaio Correa transmite uma sensação de enfado, de paralisia.

Uma repetição daquilo que se viu – ou não se viu- contra a Chapecoense.

O que encontrar de novo?

O que abordar de diferente?

Não, não aceito o apelo do presidente Marco Antonio Eberlin de que a imprensa precisa entender que a Ponte Preta é um patrimônio da cidade de Campinas e que é preciso ter um olhar diferenciado.

Vou colaborar ao fazer aquilo que eu faço: um trabalho sério, digno, sem amarras com o poder. A critica faz parte do futebol e precisa ser entendida como parte do processo. E se um time caiu no Paulista e encontra-se na Série B do Campeonato Brasileiro não há como avaliar de modo positivo.

Conceder uma nota baixa é mais do que uma obrigação profissional, é uma tarefa moral.

E essa tarefa de avaliação ficou ainda mais latente e dificultosa na noite de ontem, quando mais uma vez o tédio tomou conta do torcedor pontepretano.

Não tenho pudor em admitir que busquei na Música Popular Brasileira uma saída que pudesse transmitir o exato estado de coisas vigente na Ponte Preta. E encontrei todas as respostas nesta obra prima interpretada por Alcione e que fez estrondoso na década de 1970.

Sim, a canção, intitulada sufoco, fala sobre a relação conturbada entre um homem e uma mulher. E como deixar de associar com aquilo que vive o torcedor pontepretano com o seu clube? Sendo direto e reto, temos três tipos de torcedores.

O primeiro se importa e participa da vida política da Macaca. É uma minoria. De um lado ou de outro. Um outro contingente de torcedores infelizmente são alienados. Acreditam em discursos faceis, abraçam teses fantasiosas e muitas vezes apostam suas fichas em salvadores da pátria. Ou endinheiradas. Esse é um grupo um pouco maior. Mas não é maioria.

A maioria de torcedores pontepretanos é formada por gente que até não entende de tática, estratégia, capacidade de armar uma equipe, caracteristicas adequadas para o elenco ou a melhor forma de administrar o clube. Este torcedor, que é a maioria, só tem uma especialidade: amar a Ponte Preta.

Loucamente.

De maneira absolutamente inconsequente.

Ele está pouco interessado em saber que Marco Antonio Eberlin não gosta de Sergio Carnielli, ou que o presidente de honra tem diferenças com o atual presidente ou que Vanderlei Pereira entrou na Justiça para requerer aquilo que é de direito.

Ele não quer saber se o time está em situação pré falimentar ou que o executivo de futebol deve ser expulso do Majestoso.

Ele não quer saber de nada disso.

Ele só quer amar.

Sentar na arquibancada é a sua declaração de amor. Chorar a cada derrota é a expressão do seu coração que sangra sem parar. De maneira incessante.

Hoje, ele se sente traído. É um corno de arquibancada. Assiste aos olhos se matando apenas e tão somente pela vaidade. Se sente subtraído até do direito de reclamar, de cobrar, de pedir melhorias. Ele não quer saber de MRP, de DNA Pontepretano, de Marco Antonio Eberlin ou de Eduardo Lacerda. Ou de gente rica dizendo que tem a solução de todos os problemas.

Ele só quer saber de amar. E quer ser correspondido. Com um bom time, com um futebol digno. Não tem dinheiro? Que faça como uma dona de casa: faça muito com pouco. Mas ele não aguenta mais as explicações de Marco Antonio Eberlin ou os ataques de opositores nas redes sociais. E mesmo se o time reagir e sair do Z-4, o sentimento de traição em relação aos seus sentimentos vai permanecer.

Qual a saída? Abandonar o time? Deixar de amar? Nunca, jamais. Porque como diz de maneira coerente a música cantada por Alcione . Eu sei que tenho mil razões até para deixar de te amar//Não, mas eu não quero//Agir assim, meu louco amor//Eu tenho mil razões//Para lhe perdoar por amar.

É a declaração de uma mulher desesperada de amor. Mas poderia ser do torcedor pontepretano.

(Elias Aredes Junior-com foto de Álvaro Junior-Pontepress)