Reflexões sobre a nova camisa da Ponte Preta e a ousadia de buscar mudanças

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Sou apegado a tradições no futebol. O ritual de entrar no gramado, o uniforme dos jogadores, o comportamento dos treinadores. Tudo faz parte de um mosaico desconexo capaz de formar uma imagem única.Quando um comportamento consagrado é quebrado, minha atitude é admirar quem deu o passo.

Neste quesito é impossível deixar de reconhecer a ousadia dos dirigentes da Ponte Preta e dos responsáveis pela fornecedora de material esportivo, a Adidas. A cada torneio, uma nova proposta para desafiar padrões e costumes. No Campeonato Paulista, o torcedor da Macaca ficou mais tempo em debate sobre a validade de utilizar uma camisa amarela do que em relação a produção da equipe comandada primeiramente por Vinicius Eutrópio e depois por Alexandre Gallo.

Nesta quinta-feira, muitos pontepretanos acordaram diante do computador com a imagem da camisa da Macaca para o Campeonato Brasileiro. A novidade: um novo desenho da faixa transversal, mais larga e com um tom diferente, com ênfase no degradê.

O que acho interessante é a busca de explicações e justificativas para mudanças naquilo que foi definido desde a fundação do clube. Algumas explicações com sentido e em outras oportunidades não. Vejam por exemplo, a explicação do diretor de marketing pontepretano Eduardo Lacerda: “A ideia da faixa mais larga é fazer uma referência ao crescimento do time, que hoje é a maior força do interior do estado, o único fora da capital a disputar todas as competições de elite do Brasil e cresce cada vez mais, com a conquista de novos torcedores, grandes patrocínios e formando times extremamente competitivos, confirmando seu pioneirismo, sua autenticidade e espírito de superação e longevidade”, afirmou o dirigente. Para a camisa amarela do Paulistão, a justificativa era homenagear a cidade de Campinas, pois o calção era azul, as cores da cidade. 

Ok, não há como contestar ou depreciar sua explanação. Não tenho bola de cristal ou sou profeta, mas considero que a resistência sobre a proposta será menor em relação a camisa amarela. Pode ser registrada uma queixa aqui e ali e só.

Independente de reações positivas ou negativas, um preceito poderia ser adotado não só pela Ponte Preta e sim por todos os clubes. Explico: um clube de futebol popular geralmente é fruto de uma vontade coletiva, do reflexo e desejo de determinado segmento da sociedade. Pense: as camisas pesadas do futebol brasileiro não tem proprietários de direito. A camisa é a representação e simbolismo deste sentimento e objetivo traçado a partir de uma reunião ocorrida em uma praça ou uma sala de reunião.

Quando ocorrer a  mudança em layout das camisas, o salutar seria adotar uma comissão de notáveis, com representantes da torcida e reconhecidamente ligados a agremiação. A empresa de material esportivo faria as propostas e eles dariam o aval ou encaminhariam sugestões . Você pode alegar: ah, no continente europeu não é assim. Pode ser. Só que essa ânsia de querer patrocinar uma modernização inconsequente produz times pasterizados e cada vez distantes das arquibancadas. Que a nova camisa pontepretana seja um marco não de separação e sim de aglutinação. E que na próxima vez fique claro que a voz da tradição foi ouvida e ponderada.

(análise feita por Elias Aredes Junior)