Tiãozinho e Ponte Preta: militância política jamais pode servir de atenuante para julgar uma gestão decepcionante em uma paixão centenária

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Por adotar um tom critico em relação a todas as administrações que conduziram o futebol campineiro nos últimos anos, tenho consciência de que existia uma expectativa sobre como iria abordar os gestos e atitudes do eletricitário Sebastião Arcanjo, o Tiãozinho na Ponte Preta. Afinal, seria um jornalista negro com poder de análise sobre um dirigente negro, o único nas duas principais divisões do Brasil.

Da parte de adeptos do movimento negros existia um sentimento de que a análise deveria ser feita na base da camaradagem. Ou seja, um enfoque mais dócil. Meta?  Relativizar as dificuldades e apresentar ao distinto público uma vitrine mais bonita. Do outro lado, existia uma fissura de vingança por parte de alguns, de apontar  Tiãozinho como mais um preposto de Sérgio Carnielli. Nem uma coisa nem outra e sim jornalismo analítico.

Reconheço as consequências nefastas no tratamento dispensado  ao negro no Brasil. Uma sociedade que sonega oportunidades. Que paga, em média, 30% a menos de rendimentos a um afrodescendente em comparação a um branco na mesma função. Negros que são, disparadamente as maiores vitimas de violência policial, de falta de acesso aos principais postos do país e que são protagonistas às avessas de todo o tipo de preconceito. Sem contar a educação pública sucateada, que desperdiça milhares e milhares de talentos. Ninguém precisa me falar isso. Eu sei, vivi e reconheço as dificuldades.

Se existe  variedade ideológica na sociedade brasileira temos uma diversidade na maneira de encarar e destrinchar os desafios. O Brasil teve personalidades icônicas como Pixinguinha, Pelé, Milton Santos, Didi, entre nós. Só que existe o reverso da medalha.

Existem negros que não correspondem às expectativas quando chegam aos postos máximos. Não foram preparados? Não tiveram oportunidades? Verdade. Mas decepcionam. Falham em suas funções. Tomam decisões equivocadas. Erram. Pergunto: por que eu, no exercício da minha tarefa, devo ignorar este cenário?

Não posso escantear na memória que Tiãozinho é o presidente do clube no período em que o time já teve Gilson Kleina, João Brigatti, Marcelo Oliveira e Fábio Moreno. Quatro técnicos em 14 meses de mandato. Isso não é falta de planejamento? Gestão errática? Se não for, é o que?

Como ignorar? Uma agremiação que teve o sabor amargo de atrasar salários aos seus jogadores e de quebra viu escoar por entre os dedos, em sua gestão, um tabu de sete anos sem perder o principal clássico da cidade. Qualquer outro presidente seria criticado. Por que Tiãozinho deve ser poupado? Ele participou do processo. E deve ser cobrado.

Como vereador e deputado estadual e como dirigente sindical, Tiãozinho tem uma folha exemplar em relação a luta contra a discriminação racial e pela preservação e respeito as religiões de matriz africana. Sem contar a defesa dos direitos dos trabalhadores energéticos. Isso ninguém vai apagar.

Como dirigente e comandante de uma paixão centenária, o atual presidente da Ponte Preta é uma decepção. E a melhor contribuição que posso dar para que ele melhore não é ser aliado ou comparsa para vender uma versão adocicada de sua gestão. A saída é o que faço há 25 anos: jornalismo critico, apartidário e independente. Fora disso, tudo é inútil.

(Elias Aredes Junior)