domingo , 24 setembro 2017
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Uma história sobre pais, filhos e o amor pontepretano

Por Elias Aredes Junior*

Tobias é operário. Jornada de 12 horas por dia. Sofrimento em ônibus arrebentados e dinheiro contado. Mora na região do Campo Grande. Luta com a vida. Luta pela vida. O futebol é a sua válvula de escape. A Ponte Preta é sua razão de viver. Ao lado de Michel. O garoto de 08 anos é seu orgulho. Quase não encontra. Vive com a mãe do outro lado da cidade. Desavenças, conflitos e uma herança no meio. O futebol como salvação. Elo de amor.

A semifinal do Campeonato Paulista parecia o palco ideal: domingo de páscoa, decisão de vaga na final contra o Palmeiras. Valia a pena o sacrifício.

Tobias entrou na fila. Fincou pé às 03h da manhã. Foi o primeiro a comprar os ingressos. O seu e de Michel. Programa imperdível.

Domingo e a alvorada surge no horizonte. Camisa da Alvinegra tirada do armário, moedas contadas para o ônibus, um refrigerante e um lanche no lado externo do estádio. Para Michel. Seu alimento seria a felicidade do filho.

Garoto a tiracolo e dificuldade de vislumbrar um lugar no Majestoso. Missão cumprida. A bola rola e os gols se transformam em explosão de alegria. Um, dois, três a zero no Palmeiras. Festa, abraços, confraternização e choro de alegria.

Tobias não estava completo. Intrigado era o correto. O garoto comemorava, pulava mas lhe dirigia a palavra. Ficava introspectivo, quieto. Olhava tudo ao redor. Sem desgrudar do gramado. Nenhuma palavra com o pai.

Fim de jogo. Tobias deixa o garoto com a mãe e vai para casa. Deita a cabeça no travesseiro e um misto de êxtase e frustração invadia sua alma. A “sua” Ponte Preta venceu, desfrutou instantes indescritíveis com seus irmãos de arquibancada. O filho parecia um desconhecido na multidão. Não conversaram. Não partilharam aquele instante. Tudo gelado, distante, frio.

Veio o dia seguinte. Alma com interrogações e dúvidas. Onde estava aquele amor pela Ponte Preta partilhado entre ambos? E a chance de transformar jogadores de carne e osso em heróis?  Era preciso esquecer tudo e ganhar o pão de cada hora.

O chefe encaminhava os pedidos no serviço, o dia transcorria normalmente e algo parecia fora do lugar. Nada combinava. Foi quando o celular tocou. Era o Whatsapp. A ex-esposa, Berenice, envia o texto:

“Passa aqui em casa. Tem algo urgente para gente conversar”.

O mundo caiu. Tinha receio de algum imprevisto com o filho. Vida sofrida, sem roteiro. Às 18 horas em ponto, Tobias bate o cartão na empresa em Barão Geraldo e pega o primeiro ônibus ao terminal do distrito; de lá, um novo veículo no rumo do centro da cidade e finalmente o embarque na linha 3.48. Destino: a Vila Georgina, seu bairro de infância. Casas de alvenaria, prestes a terminar, o pagode em volume máximo, gente pela calçada e o retorno para a residência em que viveu com a ex-mulher até 2014. Fica em uma viela escura, com iluminação parca e irregular.

Desembarque feito, caminhada executada. O velho lar reaparece na retina. Na sua frente, Berenice, atrapalhada com a janta toma um susto com sua chegada, mas se recompõe.

Após os cumprimentos frios, Berenice descreve a surpresa com Michel na aula de Língua Portuguesa na escola municipal localizada a 500 metros. Ela explica em detalhes:

– Olha, não sei e nem quero saber o que aconteceu ontem naquele campo. Você sabe que não gosto de futebol. A professora pediu uma redação para o Mi (tratamento carinhoso dirigido ao filho) e o garoto tirou nota 10-, explicou a dona de casa.

– Nota 10?  Como assim?   Ele nunca foi ligado em Lingua Portuguesa? O que o jogo de ontem tem relação com isso?

Apressada e sem paciência para explicações, Berenice dirige-se ao quarto de Michel. De soslaio, Tobias vê à distância o seu filho entretido com o fone de ouvido conectado no Play Station 4. O jogo?  Fifa 2017. Com a Ponte Preta no portifólio. Diversão on line, com gente que não conhece. Tempos modernos.

Distraído e concentrado na imagem do filho, Tobias toma um susto quando o papel amassado, tirado de um caderno universitário apareceu na sua frente:

– Leia e confira o milagre…

Tobias sentou na acanhada cozinha. Projetou o tronco para frente e pegou o papel com as duas mãos. A cada linha, virgula, paragrafo e palavra escrita pelas mãos do garoto de 8 anos, a surpresa, o espanto, a perplexidade. Não é para menos:

 

“Meu dia inesquecível…

Há dois anos não saía com meu pai. Sentia falta. Ele é tudo para mim. Sonhava com o dia em que ele me levasse pela primeira vez ao estádio da Ponte Preta. Cansei de ver pela televisão ou na casa de amigos que tem dinheiro para pagar TV a Cabo. Queria ver a macaquinha com meu pai. Foi ele que me ensinou a chama-la assim.

Na quinta-feira ele apareceu em casa com dois ingressos na mão. Poxa, fiquei muito feliz.

Fiquei mais feliz porque meu pai ficou feliz. Entende? Deixa explicar: quando ele vem na minha casa duas vezes por mês me visitar eu só vejo ele triste e me pedindo desculpa por não conseguir dar uma condição de vida melhor.

Então, quando a gente sentou no estádio, eu decidi que não queria só ver a Ponte Preta. Eu queria ver meu pai feliz. E eu vi. Nos três gols da Ponte Preta. Eu fiquei tão contente, mas tão contente que nem conseguia falar. Só olhava para o campo e pensava: “Papai do céu, obrigado por fazer meu pai feliz”. Ele pulou, me jogou para o alto e chorou. Até abraçou umas pessoas que nunca vi na vida. E eu abracei também.

Papai diz agora que devo torcer para a Macacaquinha chegar na final. Que ele vai me levar no campo novamente. Não vejo a hora. Porque a Ponte Preta vai me deixar feliz e meu pai também”

 

Tobias deixou o papel em pandarecos. Encharcados por lágrimas e emoções presentes e que iam e voltavam de maneira devastadora no seu coração. Foi quando o filho, com o fone de ouvido no pescoço e o controle do vídeo game na mão direita, anunciou:

-Pai, fica tranquilo. O vídeo game marcou pênalti para Ponte Preta. E eu marquei. Gol de Pottker. Tá 4 a 0 para a Ponte Preta. O Palmeiras perdeu. A vaga na final é nossa.

E os dois se abraçaram. Convictos de que aquele amor sublime produzirá novas vitórias e instantes inesquecíveis.

(*crônica de autoria de Elias Aredes Junior- Os personagens deste texto são fictícios. A crônica é uma homenagem aos pais pontepretanos que lutam e não desistem de transportar um amor por um clube marcante no futebol nacional)

 

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2 Comentários

  1. Bela crônica, Elias. Algum desavisado pode até sugerir que este texto pode se aplicar a qualquer time, mas acho que não. A Ponte sempre foi o time do povão de Campinas, mas juntando de tudo: pobres com ricos, pretos com brancos, patrões com empregados, velhos com jovens. Como diz o hino do saudoso Renato Silva: Orgulho de Nossa Terra, és amada Ponte Preta!

  2. Crônica lindíssima com certeza levaram muitos pontepretanos assim como eu as lagrimas.
    Como citei outras vezes neste portal sou seu fã Elias com os seu comentários e com suas crônicas.
    Só tenho a dizer muito OBRIGADO.

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