Análise Especial: a invasão dos técnicos estrangeiros e o extermínio do interior paulista como fonte de renovação do futebol brasileiro

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O ano de 2019 foi marcado pela invasão dos técnicos estrangeiros no Brasil. Jorge Jesus revolucionou o Flamengo, Jorge Sampaoli foi vice-campeão Brasileiro com elenco modesto no Santos e este ano começa com Eduardo Coudet no Internacional de Porto Alegre e Dudamel como novo comandante do Atlético Mineiro.

Os dirigentes claramente estão enjoados de Mano Menezes, Celso Roth e outras grifes defensivistas. Em uma ação de sobrevivência, os técnicos brasileiros reagem com vigor. Defendem suas bandeiras.

O que poucos não entendem que um dos pólos de renovação foi enfraquecido. E por intermédio deste local é que o futebol brasileiro poderia renovar seus conceitos: o interior paulista. Trabalhar em times pequenos e modestos faziam com que profissionais ganhassem lugar ao sol e conseguissem fixar o seu nome no imaginário do torcedor. E oxigenavam as ideias.

Antes de conseguir sua chance inicial no Palmeiras, em 1969, Rubens Minelli treinou América de Rio Preto, Botafogo, Sport (PE), Francana e Guarani. Uma trajetória forjada basicamente no interior paulista. Dali conseguiu visibilidade para ser bicampeão brasileiro com o Internacional de Porto Alegre e com o São Paulo em 1977. No ano seguinte, um homem vindo da Caldense assumiu o Guarani e foi campeão brasileiro. Carlos Alberto Silva apresentou esse cartão de visitas e depois dirigiu São Paulo, Atlético Mineiro, Porto, Cruzeiro, entre outras potências.

Em 1990, o Bragantino foi campeão paulista sob a Batuta de Vanderlei Luxemburgo, na época muito mais um ex-lateral do Flamengo do que um mestre do banco de reservas. O vice-campeão? O Novorizontino de Nelsinho Baptista, que no foi campeão brasileiro pelo Corinthians meses depois e trilhou um caminho de sucesso.

Até Muricy Ramalho deve sua trajetória aos clubes de menor porte. Foi a partir da conquista do Campeonato Paulista de 2004, ao substituir Tite, que ganhou espaço para seus trabalhos no Internacional, São Paulo, Fluminense e Santos.

Ao pegarmos o futebol campineiro como exemplo, basta dizer que Guto Ferreira e Gilson Kleina só conseguiram espaço em gigantes em Internacional e Palmeiras porque apresentaram bom rendimento na Ponte Preta. Umberto Louzer, por sua vez, só desembarcou em Curitiba devido ao retrospecto construído no Guarani. O que dizer então de Marcelo Chamusca, cujo horizonte abriu-se após o vice-campeonato da Série C de 2016 com o Alviverde?

Se fizermos uma viagem do tempo, Cilinho construiu sua base na Ponte Preta para depois atrair o São Paulo e fazer um time histórico. Zé Duarte dirigiu Fluminense e Cruzeiro graças aos seus resultados no Brinco de Ouro e Moisés Lucarelli. Mais recentemente, Marco Aurélio Moreira, hoje aposentado, após construir boas campanhas com a Ponte Preta, teve oportunidades em Palmeiras e Cruzeiro.

Quem estuda e acompanha futebol deveria ficar triste com a decisão do Red Bull Bragantino de cogitar a contratação do português José Peseiro. Não porque é um estrangeiro, e sim porque o clube de Bragança Paulista abre mão de ser um trampolim para revelação de técnicos, uma vocação do futebol do interior do estado de São Paulo.

Sou a favor de um campeonato brasileiro nas Séries A, B e C com a formula de pontos corridos e uma quarta divisão forte e que dê sustentação financeira para clubes pequenos realizarem trabalhos dignos. Talvez este seja o defeito da nova ordem do futebol brasileiro. Na ânsia de modernizar (o que é certo) mataram aquilo que dava certo e de certa maneira era um dos pilares de renovação do futebol brasileiro ao lado da escola gaúcha e carioca.

Exterminar o interior de São Paulo como celeiro para projeção de novos treinadores abre espaço para treinadores estrangeiros (o que é bom) mas fecha um canal de renovação essencial ao futebol brasileiro. Uma pena.

(Análise Feita por Elias Aredes Junior)

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