domingo , 22 outubro 2017
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O Só Dérbi sempre estará ao lado dos torcedores de Ponte Preta e Guarani. Para auxiliar na volta dos bons tempos!

Desde os primórdios do futebol no Brasil, os dirigentes nunca gostaram do jornalismo puro, focado em fiscalizar os desmandos e as mutretas do poder. Um painel bem elaborado deste cenário é descrito pelo jornalista André Ribeiro no livro “Os Donos do Espetáculo”, que conta a história da imprensa esportiva no Brasil.

Nomes como Juca Kfouri, João Saldanha, Sérgio Martins, José Trajano, Flávio Gomes, Mauro Cézar Pereira, Lúcio de Castro  nunca caíram nas graças dos gabinetes e sequer dos vestiários e do banco de reservas. O motivo é que tais profissionais resolveram revelar que tais personagens eram falhos, cometiam erros e por vezes deslizavam até no campo da moral e da ética. Estes jornalistas pagaram um preço. Especialmente por enfrentar um modelo consagrado no país, que é do jornalista e do cronista que é camarada ou torcedor. Que de tão apaixonado pelo clube fica alienado.

Sou apaixonado por futebol. Desde 1980. Tenho recordações de jogos inesquecíveis e de atletas nos dois clubes de Campinas. Um caminho natural seria a de trilhar a opção da alienação. Ser um torcedor com um microfone na mão e ficar bem com todos. Confesso que até 1990 esta minha visão prevalecia. Mudou quando entrei aos 18 anos no curso de jornalismo da PUC-Campinas.

Ao ter contato com um vasto campo de leitura e de conhecimento, minha cabeça alterou. Ainda existiam resquícios  quando estava formado e atuei como repórter primeiro na editoria de esportes do Diário do Povo e depois nos outros veículos em que trabalhei. Quando mergulhei fundo na literatura sobre futebol, o rumo foi alterado. Passei a relacionar futebol com economia, sociologia, literatura, administração, antropologia…Impossível considerar um esporte apenas nas quatro linhas. Ou em declarações vagas e artificiais de dirigentes.

Foi  essa minha conduta quando atuei de 2008 a 2015 no Jornal Tododia. Sob o comando do editor chefe Claudio Gioria vivi o começo de uma das experiências mais gratificantes da minha profissional. Liberdade editorial plena, sem medo de interferência dos poderosos. Apenas uma orientação: que todos os lados fossem ouvidos. Sem restrições as matérias de cunho crítico e que contestavam o poder. Uma premissa presente e bancada até hoje pelos responsáveis pela Rádio Central de Campinas.

No Guarani tenho satisfação em dizer que por intermédio da minha atuação, o jornal foi um dos primeiros veículos que abriram espaço ao então candidato oposicionista Horley Senna e seu grupo político. Que deu voz e vez a todos os grupos de oposição na Ponte Preta.

Pena que os localizados na oposição e agora situação do Guarani demoraram a entender a função do jornalismo. Ao publicar uma matéria sobre o leilão do Guarani na Justiça Federal, este jornalista ficou um ano proibido de entrar nas dependências do estádio Brinco de Ouro da princesa. Sem acesso a coletivas e treinamentos. Nunca deixei de fazer meu trabalho. Pelo contrário. Com o auxilio do então chefe de esportes da Rádio Central, Alberto César e da direção do jornal, aconteceu o entendimento para o meu retorno e para Horley Senna compreender que o papel da imprensa: fiscalizar, cobrar, pedir providências e mudanças. E ao poder estabelecido cabe responder as demandas. Com maturidade.

Esta semana foi marcada pela largada oficial da campanha eleitoral na Ponte Preta. Situação e Oposição vão lutar pela primazia de comandar o clube no próximo período. Este Só Dérbi já se posiciona: não apoiará ou avalizará nenhuma das chapas. Fará a sua função que é de questionar sobre os planos de governo. Ponto. Tanto que encaminhou questionários para as duas candidaturas. Esperamos que as respostas sejam dadas. Não para o Só Dérbi, e sim para o torcedor da Ponte Preta.

Da nossa parte o que esperamos tanto de uma chapa como de outra é que aconteça exercício de democracia. Tanto para fazer campanha como também para compreender o papel da imprensa crítica, independente e apartidária.

Alguns afirmam que o futebol é dissociado da vida real. Não é. Vivemos em um país que lutou por democracia. Batalhou pelo direito ao voto e quer colocar no passado fatos em que jornalistas eram presos, torturados, cassados e a censura imperava. Pior: mortes de civis ocorriam nos porões da ditadura e a resposta era o silêncio imposto aos veículos de comunicação. Um período em que Campinas ficou estabelecida na história como uma cidade oposicionista, de vanguarda e cujo futebol também era instrumento de luta.

Basta dizer que em 1977 a Ponte Preta foi derrotada não só no gramado, mas pelo Status Quo sequioso em ver o Corinthians quebrar o jejum de títulos. No ano seguinte, o Guarani foi campeão brasileiro e notabilizado como um contraponto ao futebol pragmático do militar Cláudio Coutinho na Copa do Mundo da Argentina. Ou seja, luta por democracia nas ruas e nos estádios.

Cabe perguntar: as duas chapas que concorrem a eleição da Ponte Preta querem deixar este legado fugir por entre os dedos? Vão abraçar a democracia plena e respeitar a visão do oponente e compreender o papel da imprensa em todos os quesitos? Ou algum dos lados quer abraçar a estratégia do estado de exceção e da censura quando estiverem com a caneta na mão?

Este Só Dérbi não quer reproduzir a visão do jogador, treinador, empresário e dirigentes. Pode e deve relatar, retratar e analisar. Nunca estabelecer relação promíscua. Nossa função é sim, ser um instrumento de reflexão de um torcedor cansado de tantos anos de incompetência e desmando. Dos dois lados.

No caso da Ponte Preta, o clube está dividido nas arquibancadas. Nossa função é dar voz a todos. E lutar para que a imprensa esportiva em Campinas fique notabilizada como a própria cidade: ousada, criativa, critica, culta, independente e de interesse publico.

Fora destas características, o jornalismo e o jornalista correm perigo de atender interesses individuais ou incorporar o papel de aliados daqueles que defendem a luta pelo poder sem escrúpulos. O Jornalismo bem feito não comporta este pacto. Esta é a nossa luta. Para que tenhamos esperança de retorno aos bons tempos.

(Texto escrito por Elias Aredes Junior)

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5 Comentários

  1. alberto duarte neto

    Belo texto, Elias. Lúcido. E como é difícil ser consciente quando o assunto é futebol, não é mesmo ? A maioria dos profissionais do esporte no Brasil,desdenham a leitura,o conhecimento. Apelam sempre para o chavão de que futebol não se aprende na escola. Teoria e prática não se excluem, mas complementam-se.Desculpe pela obviedade, mas as vezes fica difícil fugir de suas teias. Continue assim. O caminho é esse,ou seja, o conhecimento deve e pode ser uma ferramenta no fazer, falar e gostar de futebol. Ih, olha o óbvio aí, de novo. Nelson Rodrigues, que tanto e tão bem falou de futebol e outros aspectos da sociedade de sua época, não desdenhava o óbvio. Pelo contrário, pensava que não devíamos negligencia-lo.

  2. O texto só dá um escorregada ao dizer que o título do Guarani foi um contraponto ao do pragmático militar Cláudio Coutinho. Espero que não tenha sido uma crítica a ele apenas por ele ter sido militar, que, “futebolisticamente” falando não tem nada a ver.

    • Mas na época Claudio Coutinho representava um regime de exceção, assim como seu estilo de jogo…E a CBD era dominada pelos militares que comandavam uma ditadura. E o Guarani bem ou mal, queiramos ou não fez um contraponto a isso tudo. Fato. Assim como a própria cidade de Campinas

      • Bom, não sou partidário do regime militar, pelo contrário, mas creio que nesta questão teremos muitas divergências. Sobre o estilo de Coutinho, respeito sua opinião, mas podemos reconhecer méritos nele, apesar de pragmático, como treinador, na época, foi revolucionário, pois um dos primeiros, senão o primeiro, a dizer que apenas craques não resolvem jogos. Quanto à CBD, apesar de dominada pelos militares, não era um regime de exceção, não, aliás, Juca Kfouri mesmo, com quem também tenho várias divergências políticas, reconhece em Giulite Coutinho um grande figura, aliás, ele era vascaíno e mesmo assim, contra toda a imprensa e grandes figuras à época garantiu que o Guarani teria o direito de mandar o primeiro jogo da semifinal em Campinas, com arbitragens boas e isentas, como poderá perceber no segundo gol do Guarani em Campinas.

    • Concordo que não tem nada a ver, nunca vi alguém relacionar este título de 78 à luta pela democracia ou contra o regime militar. No máximo, uma vitória dos pequenos contra os grandes, que já se vinha desenhando há alguns anos.

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