Reportagem Especial: Dionisio Pivatto, o cometa que revolucionou e marcou a crônica esportiva campineira

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Por quase cinco anos, a crônica esportiva campineira foi abalada por um cometa. Uma estrela dotada de talento e emoção. Que transformava o futebol em algo mágico, diferenciado e inesquecível.

Pela sua voz, jogadores eram transformados em deuses e partidas eram emolduradas na memória afetiva das arquibancadas. Dionísio Pivatto era seu nome. Uma trajetória única e que foi interrompida de modo trágico em um acidente no Rio Atibaia. A reportagem do Só Dérbi entrevistou pessoas, pesquisou textos (como do amigo Ariovaldo Izac) e vai reconstituir a passagem de um locutor que ficou na lembrança de milhares de bugrinos e pontepretanos.

Criado em no interior do Paraná, em Iporã, desde o início de sua vida Pivatto destacou-se pelo jeito fácil de falar e de cativar as pessoas. O rádio foi um passo natural para buscar um lugar ao sol. Trabalhou em Coritiba, Marilia, esteve em Camboriú e em Ribeirão Preto.

Foi em meados da década de 1980, ainda em Coritiba, que a vida cruzou com Campinas. E mudaria para sempre. “Eu estive em Curitiba e encontrei com o pessoal do Capitão Hidalgo e eles me falarem dele. Isso se perdeu um pouco no tempo. Depois quem me falou dele e deu um jeito de chegar uma fita com o trabalho dele foi o Romeu Cesar”, contou o cronista esportivo Valdenê Amorim, atualmente na equipe de esportes da CBN Campinas e na secretaria de comunicação da Prefeitura de Campinas. Romeu César confirmou a história, pois tinha trabalhado com Pivatto em Ribeirão Preto.

Enquanto o destino fazia suas traquinagens, Dionísio preparava-se para o grande salto. “Ele buscou uma grande oportunidade. Nunca desistiu. Ele confiava que poderia chegar longe”, contou Eliza Satiko, que foi casada com Pivatto e hoje reside no Japão.

Mal sabia o locutor que tudo passou a conspirar para que o seu talento florescesse para um grande público. Amorim na época comandava a equipe de esportes da Rádio Brasil e foi ali que teve o primeiro contato com o trabalho de Dionísio Pivatto. Ao ouvir a fita com o trabalho do narrador, ele entrou em contato. Após uma série de idas e vindas, Dionísio Pivatto acertou sua chegada em Campinas. Estávamos em meados de 1983.

Não foi difícil para estabelecer vínculos. Um deles foi com João Carlos de Freitas, que viu Pivatto chegar na Rádio Brasil para substituir Jorge Lunardi, que foi para a Rádio Globo de São Paulo.  “Conforme  ele foi fazendo os jogos ele foi se impondo. Ele tinha o dom da comunicação. Ele era muito inteligente e exibia perspicácia. E um espirito um pouco irresponsável”, afirmou João Carlos de Freitas.

Um fato deve ser ressaltado. Vivíamos em plena época de revolução promovida por Osmar Santos. A transmissão de futebol era um show, com vinhetas e bordões. Dionísio Pivatto encaminhava-se nesta trilha. Outro fator era o protagonismo vivido pelo rádio. As transmissões de televisões eram escassas e a TV por Assinatura e o Pay Per View eram escassos. “Um dos segredos era que transformava os finais de jogo em algo eletrizante, seja contra ou favor as equipes campineiras”, completou o atual comentarista da CBN.

O receituário não poderia produzir impressão melhor. “O sucesso dele foi imediato. Ele chegou com uma ginga diferente. E o que chamou minha atenção foi o “Fogo na Fundanga”. Ele usava demais e tinha como marca registrada”, contou Valdenê Amorim, que contou a consequência de sua presença na equipe de esportes. “A audiência cresceu assustadoramente. Ele era uma novidade para o Rádio de Campinas”, relembrou.

Uma das recordações de Valdenê  é a de que no período em que presenciava os jogos ao vivo nos estádios. Ao conferir o giro do placar, sempre com efeito sonoro, algo único ocorria. “Eu ficava prestando atenção e mesmo com os problemas técnicos, a transmissão dava eco no estádio Brinco de Ouro e no Moises Lucarelli”, contou Valdenê Amorim.

O carisma converteu-se em popularidade. Dionísio agradava as duas torcidas. No Guarani, Luiz Roberto Zini, eleito presidente a partir de 1988, era fã incondicional do seu trabalho enquanto que na Ponte Preta a consagração veio direta das arquibancadas. João Carlos de Freitas conta que no dia 04 de agosto de 1985, ele e Dionísio Pivatto trabalhavam em uma partida da Macaca contra o XV de Piracicaba. A alvinegra vencia por 5 a 0, quando Dadá Maravilha, então no Nhô Quim marcou o gol de honra e protagonizou um instante insólito: foi na direção das arquibancadas e foi aplaudido. “Ele transformou aquilo em um espetáculo. As cabines eram abertas e o povo começou a olhar na nossa direção. Ficou a torcida toda olhando a sua narração. Nunca vi aquilo e acho que nunca mais verei algo igual”, relembrou João Carlos de Freitas.

O trabalho produziu frutos e efeitos imediatos.  Dionísio Pivatto passou a fazer jogos para a equipe de Osmar Santos em São Paulo e no passo seguinte recebeu o convite novamente modificou sua vida. Pivatto foi convidado para comandar a equipe de esportes da Rádio Educadora (Atual Bandeirantes) e o desenlace na Rádio Brasil teve seus desencontros. “Tínhamos um relacionamento muito bom. Mas ele nem falou comigo (sobre a saída). Eu penso até hoje que, pela consideração que ele tinha por mim, por ser a pessoa que trouxe para Campinas, ele foi direto para conversar com o Sinésio Pedroso Filho, o proprietário da rádio e depois o Sinésio comunicou a sua saída”, contou Valdenê.

A premonição de que empunharia um microfone de alcance nacional norteou a cabeça de Dionísio Pivatto. “Ele dizia que uma hora iria trabalhar na Educadora. No dia que isso aconteceu, ele veio todo feliz me falar a novidade e dizer: eu não falei que iria conseguir?”, recordou Eliza Satiko. A partir daquele instante, o narrador iria viver um período intenso, de novas descobertas e que foi interrompido de maneira inexplicável.

(texto e reportagem: Elias Aredes Junior)

Observação: Este portal agradece a colaboração dos amigos e familiares que possibilitaram a montagem desta reportagem que é, antes de tudo, um resgate da memória da crônica esportiva campineira