Dionisio Pivatto: a chegada na Rádio Educadora e o fim trágico e inexplicável

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Em fevereiro de 1988, Dionísio Pivatto foi contratado pela Rádio Educadora de Campinas. Sua responsabilidade era dobrada. Comandar uma equipe esportiva e multiplicar a audiência. Adotou duas direções. A primeira foi a de prestigiar quem já estava dentro da emissora, como José Ribeiro, Claudemir Castanheira, Sérgio Freire e Mário Filho.

Queria ainda contar com os amigos feitos em Campinas tanto por ele como pela esposa Eliza e os filhos Aline e Nielsen, na época e que conviviam com um “amiguinho” que na hoje é um formador de opinião na imprensa campineira. “O Dionísio era próximo da nossa família. Sempre vivia em nossa casa. Ele era divertido e era muito ligado nele. Ele até me ensinou a comer beterraba”, conta o hoje jornalista Carlos Eduardo de Freitas, que atuava como mascote da equipe da Rádio Brasil nas competições da ACEC.

Dionisio esteve na Educadora para revelar novos talentos. Deixou legado. Um dos primeiros é o publicitário e cronista esportivo Vagner Bastos, que iniciou sua trajetória no mercado de comunicação justamente na equipe liderada por Pivatto. “Dionísio era meu vizinho de apartamento mas não tinha muito contato com ele. Eu sonhava ser locutor de rádio mas não de esportes, queria mesmo era trabalhar em FM, sonho de todo jovem. Quando entrei no curso de locução do SENAC, ele era um dos professores. Elogiou o meu potencial, nos aproximamos mais e como ele estava montando a equipe da Educadora, me ofereceu um espaço na produção”, disse Bastos a reportagem do Só Dérbi.

O poder de convencimento de Pivatto era tamanho que Vagner Bastos não teve receio em alterar o rumo da vida. “A ideia era que eu vendesse publicidade para me sustentar enquanto aprendia a fazer rádio esportivo. Topei na hora, larguei o emprego que eu tinha e fui. Seis meses depois eu já tinha me adaptado e comecei a receber, como produtor e já fazendo algum noticiário na locução. Descobri a vocação”, contou.

Atualmente âncora na 105 FM, Maércio Ramos, o conhecido Morcegão, tem Pivatto como participante na sua carreira. Após 32 anos, ele ainda recorda com ar de agradecimento.  “Quando comecei, o Guarani disputava a Copa Libertadores. Fiquei dois meses (trabalhando com Dionísio Pivatto) e cheguei junto com o Vagner Bastos. Bati na porta da rádio e o Bastos disse que eu era falante e apaixonado por rádio. Ele disse: é esse cara que eu quero aqui”, contou o atual âncora da 105 FM.

Para ele, o potencial dele era quase inesgotável. “Sempre fui ouvinte de rádio e o locutor era o 12º jogador. Vinha até antes do goleiro. Dionísio Pivatto seria o substituto de Osmar Santos ou o substituto imediato”, contou Maércio Ramos, rápido em relembrar apelidos dados pelo narrador e jogadores, como o zagueiro Julio César, que era chamado de “Partido Alto” e Evair, a “Joia do Brinco”.

Pivatto nutria também admiração pela Ponte Preta. Foi com tal disposição que foi cobrir o empate sem gols entre a Macaca e o Corinthians no dia 22 abril pela Rádio Educadora no estádio do Canindé, em São Paulo. Naquela altura, ele já sabia de sua consagração, mas talvez não tivesse ideia da sua dimensão. Para exemplificar, reproduzimos o depoimento do jornalista Ariovaldo Izac, em seu blog no Futebol Interior no dia 02 de novembro de 2011. Neste texto, ele revela um encontro em que Pivatto lhe fez um convite para trabalhar na Educadora. Na sequência, Ariovaldo Izac aproveitou para dar seu testemunho: “(…) Naquele jantar (no Canindé) foi possível lhe revelar fato que presenciei meses antes, quando ele ainda estava vinculado à Rádio Brasil. Na ocasião, meu velho Fusquinha azul – relíquia que ainda preservo – havia me deixado no meio do trajeto ao Estádio Moisés Lucarelli, e o jeito foi encarar um ônibus lotado como sardinha em lata.

Eu era repórter esportivo da Rádio Nova Sumaré, comandada pelo mestre Nadir Roberto, e o atraso foi inevitável. Aí, quando desci no ponto da Rua Abolição, quase esquina com Rua Álvaro Ribeiro, cerca de 300m do estádio, acompanhei aquela multidão com rádio ligado, e juntos nos dirigimos ao velho Majestoso.

Naquela altura as jornadas esportivas das emissoras rolavam soltas. E sabem qual a proporção favorável a Dionísio Pivatto para a concorrência? Dos cerca de 20 rádios constatados, todos estavam sintonizados na transmissão do Dionísio, ou melhor, na Rádio Brasil.

Não sobrou para absolutamente ninguém. E quando tirei o fone do ouvido, já no estádio, ouvi um ‘eco total’. Só dava Dionísio. Impressionante! Quando relatei o fato com esse detalhamento, Dionísio ficou arrepiado, incrédulo. Embora convicto da liderança de audiência no rádio esportivo de Campinas na época, jamais imaginava que fosse de forma massacrante, um rolo compressor sobre nós, de outras emissoras”.

Com o relato na cabeça e com a sensação de dever cumprido que Dionísio Pivatto pegou família e amigos para um dia de pescaria no Rio Atibaia. Por volta das 21 horas, ao recolher o material de pesca, Dionisio Pivatto voltou ao Pier para lavar as mãos. Escorregou e caiu no Rio Atibaia, com bons peixes e forte correnteza. Dionísio Pivatto não sabia nadar e faleceu. Seu corpo foi encontrado posteriormente e foi enterrado em Iporã. Uma trajetória meteórica encerrada de maneira abrupta.

Com saudade no coração, a filha Aline, na época com 10 anos, tem convicção de que o pai cumpriu com sua missão na terra. Pivatto tinha 35 anos. “Meu avô e minha avó contavam que quando ele era jovem que ele realmente tinha sonhos e corre atrás, sem se importar com os obstáculos”, completou Aline, a herdeira de um narrador que estará cravado na memória do torcedor campineiro.

(texto e reportagem: Elias Aredes Junior)