terça-feira , 21 agosto 2018
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Uma reflexão sobre jornalismo, futebol e a vida

Jornalista esportivo com desejo de seguir o oficio com afinco sofre. Percebam como ex-jogador é sempre valorizado e o profissional de imprensa crítico leva uma pecha de censura. “É corneta”, “Só vê o lado negativo”, “não gosta de elogiar”, entre outros atributos.

Diversas vezes senti o desejo de desistir e deixar o futebol na mão dos sabujos, daqueles que só querem e desejam bajular, puxar o saco e embalar uma eterna resenha.

Hoje, compreendo que o tema é profundo. É um retrato do nosso país. Brasil que não valoriza a educação. Não incentiva o aprimoramento de cientistas ou que abram as portas para negros e pobres frequentarem um curso superior. O conhecimento é um patrimônio de poucos. Por conveniência e sustentação de poder.

Sim, é verdade que um povo ignorante é mais fácil de manipular. Mas também é verdade que educação dá trabalho, exige dedicação e tempo. Isso poucos querem. Presenciamos gente com uma formação hiper qualificada e com capacidade de discorrer sobre diversos temas. Recebem o desprezo como resposta. A justificativa é simples: a pessoa é pedante, arrogante, não quer conversar.

No fundo, no fundo, a motivação é um dos pecados capitais da alma humana: a inveja. Ficamos inconformados que aquela pessoa tenha tido tempo, recursos e até estrutura para estudar, aprimorar-se e ter autoridade para falar do tema que é do nosso interesse. Enquanto isso, não saímos do superficial. Sem saída, o que fazemos? Desqualificamos.

Pegue o futebol. Por décadas e décadas, tivemos dois grupos distintos. Um formado por dirigentes endinheirados, ricos e poderosos que tratavam seus atletas como escravos de luxo. Estes ganhavam bem, ostentavam carrões, casas luxuosas, mas eram incapazes por vezes de formular uma frase, um conceito sobre sua profissão, o país, o mundo. Ou Pelé foi militante político contra a ditadura?

Neste mundo simples e binário, o torcedor ficava confortável. De certa forma, ele entendia o que o jogador entendia. Negócios ficavam com os homens engravatados. Ponto final.

O mundo evoluiu, as tendências foram alteradas e os jornalistas, antes alienados e satisfeitos com o arroz feijão treino-concentração-jogo foram obrigados a conhecer outras camadas do esporte.

Fisiologia, preparo físico, mudanças táticas aceleradas, negócios que envolvem milhões…Como ficar alheio? De que forma ignorar e sustentar o padrão ultrapassado? Não dá.

No fundo, no fundo, gente como PVC, Mauro Cézar Pereira, Mauricio Noriega, Juca Kfouri e outros menos cotados são combatidos por parte de torcedores e ex-jogadores não por aquilo que fazem, mas expor a limitação de quem não tem o que dizer. Por falta de formação, educação, às vezes com pitada de fanatismo e alienação.

Futebol não é só entretenimento. É um fenômeno popular, capaz de gerar bilhões de dólares pelo mundo afora e que ainda contém fenômenos sociais como racismo, homofobia, machismo e discriminação social e econômica.

Dentro das minhas limitações faço minha parte: converso com técnicos e  com sociólogos, cientistas sociais, além de ler diversas obras literárias sobre o tema. Luto cotidianamente para fugir do trivial. Reconheço a resistência. Vale a pena.

Reconheço que é muito mais cômodo para qualquer torcedor ou ex-jogador entregar-se a infinita resenha e fechar os olhos para estes e outros problemas existentes no futebol. Por um motivo: pensar dói. Mais do que levar uma entrada violenta no Maracanã.

(Texto escrito por Elias Aredes Junior no dia 05 de junho de 2017. Mas que ainda tem validade)

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