Uma reflexão sobre Sidão e o preconceito comportamental do futebol brasileiro

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Gerou controvérsia minha opinião de que o linchamento dirigido ao goleiro Sidão tem conotação racista. Como as pessoas hoje leem pouco, muitas vezes pensamentos complexos são resumidos em poucas linhas. Pensei até em não esticar o assunto, mas como o tema está na boca do povo e estamos no dia 13 de maio, decidi pormenorizar meu conceito.

Para entender o caso de Sidão, é preciso revisitar a história do Brasil e a formação da sociedade brasileira. Nossa desigualdade de renda tem como alicerce a sociedade escravagista formada a partir do Século XVI. Os negros trazidos da África foram submetidos as mais diversas condições deploráveis, sejam de higiene e moradia. Tudo para que a cana de açúcar fosse colhida para fomentar a economia local. Simultaneamente, os negros escravos eram considerados bichos, animais e pessoas que sequer mereciam consideração. Estupros, maus tratos físicos e outros problemas foram verificados, mesmo após a promulgação da Lei do Ventre Livre ou da lei que libertava os negros idosos. Não havia cidadania. O negro era colocado em condição subalterna.

Guarde este conceito fundamental: gerações e gerações de comerciantes, senhores de engenhos e brancos portugueses fizeram sua vida no Brasil, tiveram filhos e netos com tal conceito encravado na sua formação de caráter e de cidadão.Ou seja, mesmo libertos, negros ainda não tinham acesso a cidadania. Pelo contrário: eram considerados indolentes, preguiçosos, sem iniciativa, algo que jamais foi exterminado mesmo com a libertação dos escravos.

Detalhe: a abolição da escravatura foi uma atitude muito mais mercantil e econômica (afinal, a economia inglesa e a norte-americana já eram pujantes e sem necessidade de escravos) do que por uma iniciativa humanitária. Data importante, mas tudo deve ser colocado no seu devido lugar.

O que o futebol tem relação com isso? Tudo. Quando apareceu no Brasil a partir de 1894 por intermédio de Charles Muller, o futebol era um esporte praticado por brancos e pela elite. Para poucos.

No Rio de Janeiro principalmente. A população  pobre, já negra ou miscigenada, não era considerada uma protagonista. Negros, aliás, que em sua maioria continuavam excluídos de direitos mínimos, como saúde, educação, habitação e cidadania. Eles são vitimas de um conceito que vou intitular de preconceito comportamental. Quando menos você espera você faz e sem querer fazer.

Dois clubes começaram a mudar esta história: Ponte Preta e Vasco, que aceitaram negros em suas fileiras e abalaram as estruturas. Infelizmente, a sociedade tem poder de influenciar o futebol, mas muitas vezes a recíproca não é verdade. O estigma de cidadão de segunda classe, de incapaz para executar as tarefas eram presentes.

Se Leônidas da Silva foi o primeiro sinal da afirmação do negro como personagem de excelência, também é verdade que Barbosa, ao sofrer o gol de Gighia na Copa do Mundo virou o primeiro vilão do futebol brasileiro. Um negro.

Oito anos depois, a história parecia querer mudar. Conquistar a Copa do Mundo da Suécia não foi apenas uma conquista esportiva e sim a afirmação de eficiência do Brasileiro em todas as suas formas. Os negros Pelé e Didi e o descendente de indios Garrincha foram os artistas desta performance inesquecível. No comando do Santos, Pelé, inconscientemente ou não, formou uma barreira contra o Preconceito racial, e que voltou com tudo após o fracasso na Copa de 1966. Não esqueçam de que Pelé foi tido como acabado para o futebol, sem reação. Ou seja, não podia falhar. A resposta em 1970 foi primorosa.

Pelé terminou sua trajetória e o futebol de certa forma incorporou o preconceito comportamental reinante na sociedade brasileira. Negro deveria jogar e só. Nada de ter opinião. Cláudio Adão e Paulo César Caju foram alguns que sofreram com tal patrulhamento e com uma viés preconceituosa.

No final, queiramos ou não, a verdade é que temos um sabor sádico em eleger vilões negros no futebol brasileiro. O Atlético Mineiro perdeu do Flamengo no Maracanã em 1980? Culpa do zagueiro Silvestre, que não cortou Nunes; O Brasil perdeu da Itália em 1982? Culpa do Toninho Cerezo e do Serginho, que não balançava as redes? Copa desperdiçada em 1986? Ah, o Julio Cesar bateu o pênalti na trave? E o Zico? Ah, este estava frio! E o vice-campeonato mundial na França em 1998? A convulsão do Ronaldo explica. E em 2018? Culpa do Fernandinho, que fez péssima partida contra a Bélgica.

Agora vamos ao Sidão. O goleiro atua pelo Vasco, um clube que tem uma abordagem depreciativa por parte da mídia. Junte isso com o nosso preconceito comportamental e pronto: foi feito o caldo necessário para sites de humor no futebol considerassem válido tirar sarro de um goleiro ruim. Interessante que gigantes brasileiros já contaram com goleiros de qualidade técnica inferior ou igual ao Sidão e estes mesmos sites de humor nunca tiveram uma ação tão enfática quanto a que fizeram com Sidão. O arqueiro, aliás, também foi vitima desta ânsia de entretenimento reinante no jornalismo esportivo brasileiro. Mas isso é assunto para outro artigo.

Vem a pergunta: porque o componente racial nunca é admitido no caso de Sidão e de outros casos no futebol brasileiro? Muito simples: porque somos contraditórios. Admitimos o racismo mas nos calamos pelo fato do negro receber menos que um branco ou pela ausência negros de postos de comando. Sabemos a doença mas não pegamos o remédio na prateleira para o tratamento.

Dou uma prova: há duas semanas o Estado de Minas publicou matéria para dizer que de 100 dirigentes da Série A do Brasileiro, apenas três eram negros. Repito: três. Por que a repercussão foi ínfima de informação tão relevante? Por que o nosso preconceito é introjetado, comportamental. Somos racistas e preconceituosos em pequenas atitudes do dia a dia e não sabemos. E não é questão de jogar um contra o outro. É questão de estudar a história do Brasil, seus desdobramentos e consequências sociológicas. Para inverter o quadro dá trabalho. Enquanto isso não for feito, casos como os de Sidão serão presentes. Infelizmente.

(Elias Aredes Junior)

Adendo: Para quem deseja se informar melhor recomendo dois livros da formação do negro e do preconceito no futebol brasileiro. Um é o “Negro no Futebol Brasileiro” de autoria de Mário Filho e outro é  a “Elite do Atraso”, de autoria de Jessé de Souza

 

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