Dérbis na história: no ano da anistia, um clássico no Pacaembu e um futebol que exalava liberdade

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No dia 03 de junho de 1979, uma mobilização gigantesca foi registrada nas rodovias Anhanguera e Bandeirantes. Aproximadamente 180 ônibus, com bugrinos e pontepretanos, tinham o estádio do Pacaembu como destino. Era um jogo válido pela sexta rodada do terceiro turno do Campeonato Paulista, válido pelo ano de 1978.

O Alviverde fazia parte do Grupo E. A Macaca fazia parte do Grupo F. Os dois precisavam da vitória para sustentar suas chances de classificação a fase final. No final, um gol do atacante Capitão e outro de Zenon, de pênalti, decretou o triunfo bugrino por 2 a 0.

Público? Estrondoso. Pelo borderô, 38.948 pessoas, sendo 35.209 pagantes e 3.739 menores. De acordo com os jornais da época, mais 180 ônibus fretados se dirigiram a capital paulista, sendo 130 com pontepretanos e o restante com bugrinos. Um contra senso, pois na época, ainda com o fantasma da crise do Petróleo da década de 1970, o governo Federal, sob a responsabilidade de João Baptista de Oliveira Figueiredo, recomendava o racionamento de consumo.

Na época, a Federação Paulista, presidida por Nabi Abi Chedid,  não deu pelota para a ordem e destinou o clássico para São Paulo, o único até hoje realizado longe de Campinas. O confronto não foi aceito com resignação.

O presidente pontepretano Lauro de Moraes e o mandatário bugrino Ricardo Chuffi foram  criticados e muitos pensaram em promover um boicote ou até apelar a justiça para forçar a realização do jogo em Campinas. No final, todos aproveitam  a festa.

Ninguém deixou de se saciar com o principal clássico do interior do Brasil. O Guarani trouxe para as arquibancadas do estádio do Pacaembu, a escola de samba Estrela D´Alva enquanto que pontepretanos tinham um apoio entusiasmado das arquibancadas.

Após o jogo, além da derrota, o presidente Lauro Moraes teve que administrar por vários dias a revolta do torcedor com a perda do atacante Jorge Campos, emprestado junto ao Atlético Mineiro. Quanto ao Guarani, a festa foi realizada no Largo do Rosário.

Uma festa inserida em um Brasil que vivia os estertores da ditadura militar. Uma cidade de Campinas oposicionista ao regime, cujo prefeito era do MDB, Francisco Amaral. Além do futebol, a preocupação era a luta pela Anistia dos presos políticos e daqueles que estavam exilados e que foram beneficiados pela lei assinada em 28 de agosto de 1979. Uma mobilização que contou com faixas e cartazes espalhados por ruas de todo o país.

Muitos bugrinos e pontepretanos foram beneficiados com esta lufada de liberdade. Que já era presente no gramado com dois times revolucionários no jeito de entender e de fazer futebol. Bons tempos.

(Elias Aredes Junior)

FICHA TÉCNICA

PONTE PRETA– Carlos, Toninho Oliveira, Eugênio, Nenê e Toninho Costa; Wanderley, Lola (Afrânio) e Dicá; Lúcio, Osvaldo e João Paulo. Técnico: Cilinho.

GUARANI – Neneca, Mauro, Gomes, Edson e Miranda; Zé Carlos, Renato e Zenon; Capitão, Careca e Bozó. Técnico: Carlos Alberto Silva.

Gols: Capitão aos 42 minutos do primeiro tempo; Zenon (pênalti) aos 40 minutos do segundo tempo.

Local: Paulo Machado de Carvalho (Pacaembu) – São Paulo

Data: 03/06/1979 (Domingo)

Horário: 16:00 h

Árbitro: Hélio Cosso (MG)

Cartões Vermelhos: Mauro aos 36 min. do 1o. tempo e Nenê aos 34 min. do 2o. tempo.

Renda: Cr$ 1.335.640,00

Público: 38.948 (35.209 pagantes e 3.739 menores)

Fonte: José Ricardo Lenzi Mariolani