Sete histórias para retratar os 200 jogos de Vadão no Guarani

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Oswaldo Alvarez completará 200 jogos no banco de reservas do Guarani. Será na terça-feira, contra o Luverdense, em Lucas do Rio Verde (MT). Está na história do clube. Pela porta da frente. Conhecedor profundo de futebol, por anos e anos, o profissional de 61 anos utilizou de diversas técnicas motivacionais para extrair todo o potencial de jogadores. Protagonizou instantes de puro humor involuntário. Algumas aventuras e desventuras tomei conhecimento por terceiros. Outros episódios recebi o relato do próprio Vadão no período que fui setorista dos dois clubes de Campinas para o jornal Tododia. Vou repartir sete histórias com os leitores do Só Dérbi. Acompanhe:

1-Motivação na veia: Estamos em 2009. Faltam poucas horas para o dérbi do primeiro turno da Série B do Campeonato Brasileiro. O time designado por Vadão

Gol de Caíque: vitimado por preleção sem roteiro
Gol de Caíque: vitaminado por preleção sem roteiro

almoça no restaurante do hotel. O psicólogo da comissão técnica, Serapião Aguiar, chama Vadão em um canto. Fala para cancelar a palestra. “Esqueça a estratégia ou esquema tático. O time está com medo. Se você não mexer com os brios dos jogadores vai ficar muito difícil”.

Vadão aceita a sugestão e ao entrar na sala de reuniões para a palestra uma transformação acontece: o senhor calmo e cordato dá lugar a uma pessoa enfurecida, que chama os atletas aos gritos. Um comportamento que em dado momento faz até a recepção do hotel cogitar chamar a polícia por achar que ocorria alguma briga. O efeito foi imediato. Caíque entrou no gramado e com um minuto de jogo soltou uma bomba que definiu o dérbi. A fórmula deu certo.

2-Instrução de qualquer jeito: Oswaldo Alvarez era um sobrevivente na Era Beto Zini. Fazia as coisas do seu jeito, mas precisava tourear o ímpeto do dirigente, que adorava dar palpite na escalação. Antes, durante e depois dos jogos. Em determinado dia, em um jogo do Campeonato Paulista, Vadão tentou despistar o dirigente.

Com Beto Zini (foto acima) Vadão viveu altos e baixos. Como todo técnico da época...
Com Beto Zini (foto acima) Vadão viveu altos e baixos. Como todo técnico da época…

Orientou que seus auxiliares Gersinho e Estevam Soares não entrassem no estádio em que ocorreu a partida na grande São Paulo. Na sua cabeça, as interferências para serem registradas teriam um grau de dificuldade maior, apesar da presença de Beto Zini no estádio. Eis que durante o jogo, o quarto árbitro chama sua atenção e diz rapidamente: “Toma esse bilhete que é para você”. Plano frustrado.

3-A escalação de Medina- Véspera da semifinal do Campeonato Paulista. Time escalado e pronto para encarar a rival Ponte Preta. Depois da janta, Vadão fica inquieto. Chama o então auxiliar Gersinho e ordena: “Medina vai para o banco”. Todos na comissão técnica não entendem. Em nenhum momento o jogador foi aventado e cogitado. Argumentos, discussões, debates e Vadão não arredava pé de seu plano: “O Medina precisa ficar no banco”. Operação executada, o jogo começa e Fumagalli lesiona no primeiro tempo. Medina entra para no dérbi e faz dois gols. O resto é história.

4-O churrasco surpreendente- Série B de 2009. O Guarani encontra-se no G4 e tem dérbi contra a Ponte Preta no Brinco de Ouro. Pressão sobe além da conta após a derrota para o Vasco da Gama no Maracanã. O rival campineiro treina como louco e fecha tudo para imprensa. Vadão trilha o caminho inverso. Na prática, concede dois dias de folga, realiza um único treino fechado no campo do Grenasa e ainda patrocina um churrasco para o grupo. Justificativa: cumprimento de mais uma minimeta. Foi o suficiente para vencer a Macaca por 2 a 1 e continuar focado no acesso.

5- Márcio Alemão, o indomável: Guarani na Série A em 2010. Jogo de festa contra o Juventude. Termina o rachão e os setoristas estão incrédulos. Do outro lado do campo, Vadão conversa e gesticula sistematicamente com o zagueiro Márcio Alemão. A conversa dura 10, 20, 30 minutos. Atrasa a entrevista coletiva. Fora do ar, Vadão revela o motivo: o zagueiro, aos prantos, pedia para jogar por querer vingar-se do time gaúcho que não lhe pagou todos os salários. O beque não jogou. E o Guarani ganhou.

6- O telefonema inesperado – Eu era repórter do Tododia. Em um determinado sábado, mandei a matéria para o jornal sobre o time do Guarani que jogaria em uma terça na Série B. Fiz o texto baseado nas informações do próprio Vadão repassadas pela assessoria de imprensa, na época sob a responsabilidade de Michele Masotti.

No período da tarde, estava em almoço na casa da minha sogra no centro da cidade quando toca o telefone. Minha esposa vai lá e atende e fala: “Ei, eu acho que é trote. Está dizendo que é o Vadão, técnico do Guarani”. Também estranhei porque não passo telefones para fontes. Atendo e o treinador pede desculpas porque tinha transmitido informação errada de escalação para a assessoria. Queria fazer a correção. Ouvi, anotei, agradeci e só pensei: “De que planeta veio esse cara?”. Pois é, neste dia descobri que o futebol também era feito por seres humanos.

domingos
Contestado e polêmico, Domingos foi um dos vários atletas bancados por Vadão

7-Domingo ou sexta-feira?:Vadão é especialista em usar o bom humor para iludir a imprensa. No Campeonato Paulista de 2012, o Guarani estava atrás de um zagueiro. Algo urgente. Descubro que o nome da vez é Domingos, marcado por passagens polêmicas por Santos e Portuguesa. Liguei para Vadão. Queria confirmar o interesse. Já sabia da reunião com Marcelo Mingone, o presidente bugrino na ocasião. O telefone toca uma vez. Toca duas vezes. Nada. Tento outra vez. Nada. Na terceira vez Vadão atende. Desconfiado, ouve minha pergunta sobre a contratação de Domingos. Dei os dados e a conjuntura. Não havia como negar. A resposta foi certeira. “Companheiro, hoje é sexta-feira. Para que ficar preocupado com o Domingo (s)? Telefonema encerrado. O riso foi mais forte.

(análise feita por Elias Aredes Junior)

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