Análise Especial: como o ódio invadiu o jornalismo esportivo brasileiro e como explicar meu amor pela Seleção Brasileira

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Amar é resistência. Já ouvi essa frase em algum lugar. Deve ter sido em algum protesto estudantil ou uma greve de trabalhadores metalurgicos. Verdade cabal. Amar envolve preservação de afetos, de nostalgia. Vale para qualquer área. Inclusive para o futebol.

Eu amo a Seleção Brasileira. Amo na vitória, no empate e na derrota. Tenho espirito crítico e sou capaz de discernir o que é bom ou ruim. Quando o time não joga nada. Como em boa parte do jogo contra Marrocos. Sei vislumbrar uma fresta de esperança como no segundo temp. Quero criticas, análises, balanços do que foi feito nos 90 minutos. Pode ser em tom desesperado, indignado, exacerbado. Só que não pode faltar esperança. Exibir que o amanhã pode ser melhor do que ontem. Se for em cima de fatos, melhor. Fantasia é melhor nas novelas.

O que ouvi, assisti e li no sábado à noite não tinha nada disso. Jornalistas esportivos, de formação de direita ou esquerda, exalavam um ódio que estava longe de ser apenas indignação. Existia um sabor, um cheiro no ar de paixão pelo fracasso. O futebol se deixou contaminar por aquilo que existe de pior na sociedade: ódio e polarização. Pouco importa saber que Fabinho foi bem melhor do que o trágico Casemiro ou que Douglas Santos teve uma partida correta na lateral esquerda.

Ou que Vini Junior provou por A mais B o seu merecimento de um dia ter sido melhor do mundo. O que importava não era analisar. Era odiar. Tudo e todos. Não, não peço torcida. Pedi análise com começo, meio e fim e discussão sobre o que pode ser feito para melhorar e incutir um mínimo de talento e coerência em um esquema tático que inexiste. Ineficiência por causa de Ancelotti, mas em boa parte por causa dos trabalhos ruins de Fernando Diniz e Dorival Junior. Só que esses não podem ser odiados e execrados. Afinal, daqui a pouco podem defender (ou defendem) o clube do coração daquele que está na bancada. Melhor não. Terminei a noite com ranço. Desapontado e decepcionado.

Saudosismo a contragosto

Não gosto de ser saudosista. Tenho 53 anos e a consciência de que é para frente é que se vive. Em dado instante, me peguei em devaneios sobre as vezes em que assistia os debates esportivos no rádio e na televisão nas copas de 1982, 1986, 1990, 1994, 1998 e até a conquista do penta em 2002. Ou até em 2006. Existia espirito critico? Aguçadissimo. A seleção era cobrada? De maneira enfática e implacável. As edições do Apito Final na Rede Bandeirantes eram épicas. O Bate Bola da Rede Globo, com Armando Nogueira colocava o dedo na ferida. As edições do Cartões Verde, na TV Cultura eram históricas. Sem contar os materiais críticos da Folha de S. Paulo ou Jornal da Tarde. Todos esses espaços tinha algo em comum: por pior que fosse a atuação da Seleção Brasileira, era buscada uma saída, uma esperança e a desclassificação abria espaço a análise e também ao lamento. Hoje não. O que consumi ontem, em todos os espaços era o anúncio de uma desclassificação antecipada. De torcida pelo pior. Ódio, ódio, ódio. Escolha o canal, portal, rádio, televisão…Não escapou ninguém.

Por que? Sintoma da sociedade atual. O problema não está no formato dos programas ou do You Tube. O ponto nevralgico é que esses programas refletem a perda da capacidade de diálogo no Brasil. Não queremos refletir e sim decretar. De preferência, o apocalipse. Seja o jornalista esportivo de direita, esquerda, lulista, bolsonarista. O ressentimento e o ódio está em todos. Sem exceção.

O motivo de amor pela Seleção Brasileira

Ah, quase esqueço do foco do artigo, o motivo do meu amor pela Seleção Brasileira. Vou resumir em uma expressão: a Seleção Brasileira era e é meu único canal de alegria no futebol. Sou negro. Nascido na periferia. De família de classe média baixa. Eu sobrevivo, não vivo. Preciso comemorar a conquista o que para muitos é corriqueiro: a compra de um livro, a aquisição de um carro usado, a obtenção de um diploma universitário ou o fato de ter um bom teto para morar. Nunca viajei ao exterior ou para outras partes do Brasil (exceto por um periodo que fui repórter de editoria de turismo) e dificuldades econômicas me impediram de aprender um segundo idioma. Antes que falem: não é mimimi. É o retrato da realidade de milhões de negros e negras espalhados pelo Brasil. Celebro quando irmãos de raça chegam ao cume da profissão. Alguns estão na Copa do Mundo e isso é merecido. São exceções. Uma porção diminuta enquanto muitos ainda são vitimados por uma desigualdade de renda pornográfica.

Sou filho da escola pública. O pouco de cultura que tenho, foi obtido em livros e obras que leio desde 1986, quando uma professora chamada Zezé cruzou minha vida e me ensinou que a literatura vale a pena.

Para completar, torço em Campinas para uma equipe de médio porte, que nunca, jamais será campeão da Libertadores, Brasileiro ou da Copa do Brasil. O outro time da cidade também passará por tal agouro. O futebol, nesses casos, é um instante de sobrevivência e não uma ambição desmedida para vencer. Nesta conjuntura, como não amar a Seleção Brasileira? Como não torcer pelo seu sucesso? Se você torce por algum gigante, sempre terá esperança de levantar uma taça. Quem torce para equipes do interior não tem tal primazia. Isso faz toda diferença. 

Eu observo jornalistas esportivos consagrados em destilação de ódio contra o escrete canarinho e escaneio o perfil: ganham ótimos salários, são brancos, muitos estudaram em escolas particulares e jamais viram a miséria de frente. A vida lhes concedeu direito de escolha. Até de odiar o principal patrimônio imaterial da cultura nacional. Assim é fácil.

Um caso especial

Eu renuncio a esse direito. Até porque foi a Seleção Brasileira que me proporcionou instantes lindos. Tem um que jamais vou esquecer. A conquista do Tetracampeonato nos Estados Unidos tem um sentido especial.

Era dia 17 de julho. Final contra a Itália. Meu pai saiu por volta das 17h30. Disse que iria na Igreja evangélica que frequentávamos. Minha mãe disse que iria. Mas atrasaria. Em dado instante, ela tomou banho e depois ficou sentada no sofá. Para dar uma espiada no jogo. Eu, sozinho no outro assento, estava em frangalhos, estado emocional destruído. Jogo, duro, difícil e um único desejo: gritar é campeão pela primeira vez na fase adulta. Foi quando minhas mãe, dona Ester, disse: “Eu não posso ir na igreja e deixar você aqui neste estado. Vou ficar aqui com você”. E enquanto a bola rolava, o que via era uma mulher de 48 anos, de olhos fechados, mãos junto ao peito. Orando. Não para o Brasil ganhar a Copa do Mundo. Mas para que o filho não sofresse. Que ele não fosse ferido. O penalti batido para fora por Roberto Baggio gerou uma alegria exuberante naquele garoto de 21 anos, que era eu. Saí correndo pela rua. Quando voltou, minha mãe ainda estava no sofá, inerte, emocionada e só dizia em voz baixa: “obrigada, senhor, obrigada senhor”. A mesma mulher que trabalhou em dois hospitais de maneira simultânea para formar um filho em jornalismo e a filha em Nutrição.

Você pode achar piegas, bregas, mas eu lhe pergunto: qual o valor disso? Qual o tamanho de um caso como esse? Não há como medir.

Eu não tenho direito de pedir divórcio da Seleção Brasileira. Posso criticar, exigir, reivindicar, mas divorciar nunca. Porque importa o jeito de ganhar. Quem luta com a vida sabe que muitas vezes, a vitória não vem da maneira que desejamos, e sim como podemos. Que os problemas sejam corrigidos sim. Que Carlo Ancelotti seja iluminado e encontre o rumo. Mas que o amor pela Seleção Brasileira presente em todos nós não seja maculado, independente do resultado. É o que importa.

(Artigo escrito por Elias Aredes Junior-Foto de @Fifa-Divulgação)