Caso Celsinho e a pergunta: quando o racismo será combatido para valer no futebol brasileiro?

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A nota emitida pelo Brusque em relação a acusação do atacante Celsinho, do Londrina, vitima de ato de racismo em jogo entre as duas equipes na Série B, gerou indignação e comoção na imprensa esportiva e redes sociais. Celsinho é vítima de um ato racista pela terceira vez. Pior: para o time catarinense, na abordagem inicial, era o vilão e não a vitima. Descalabro. Ato que dói e dilacera a alma de qualquer pessoa com um mínimo de empatia.

Nesta segunda-feira, dia 30, o Brusque soltou outra nota. Para apagar o estrago do primeiro texto e pedir desculpas. É sempre assim. Desde 1888. Machuca-se o semelhante, formula-se um perdão mambembe e alguns acham que está tudo bem. Não está. É remendo.

Pergunta-se: o que o Brusque fará na prática para combater esses e outros atos clássicos de racismo estrutural no futuro? Quais medidas? Porque importa o dia seguinte. Para cada Celsinho violentado em sua dignidade como ser humano temos vários invisíveis sem voz. E em relação a estas pessoas? O que fará o Brusque para que elas não sejam feridas no seu cotidiano?

Sem rodeios e para expandir o tema: o que fazer para combater efetivamente o racismo presente não só no Brusque mas em outros espaços da sociedade brasileira? Eu, negro, prefiro adotar duas posturas. De início, recomendo as obras de Djamila Ribeiro e Silvio Almeida. Pensadores brasileiros de altíssimo nível. Explicam em pormenores os estragos promovidos pelo racismo estrutural.  Está tudo lá.

Como jornalista esportivo quero abordar fatos pontuais e decisivos. Sem eles, o racismo no futebol não teria tamanha facilidade de propagação.

Colaboração preciosa deve ser dada pelo jornalismo esportivo. Temos negros e negras nas redações? Sim. Elton Serra, Karine Alves, Pedro Moreno, Luiz Alano, Julio Oliveira…Os nomes são muitos. Vários. Talentosos. Sem esquecer, é claro, de Paulo César Vasconcelos. Gênio.

Só que muitos vivem sensação de deslocamento. De que a estrutura grita e tenta dizer: “este não é o seu lugar”. De que o garoto ou a garota pobre da periferia pode, no máximo, ser o astro dos gramados. Não tem direito de ser um influenciador da opinião pública.

Deslocamento verificado nos pequenos atos. Pense: jornalista, negro ou negra, quando sai de casa para trabalhar está no Brasil. Anda pelas ruas, utiliza o transporte coletivo, os serviços públicos e depara-se com a diversidade de um povo alicerçado na cultura negra. Ou de 56% da população. Quando pisa em uma redação, é inevitável a sensação de se sentir em um escritório sediado na Dinamarca ou na Noruega. Indagação: como se considerar-se respaldado para lutar contra algo que lhe fere pessoalmente se a solidão é a companheira de todas as horas? Solidão pessoal e profissional. Só quem é negro e atuante no jornalismo em qualquer área sabe do que falo.

O futebol, por sua vez, precisa escancarar as portas dos postos de comando a população preta. Em todas as instâncias. Os dados gritam. Dos 40 times das Séries A e B do Campeonato Brasileiro, apenas um clube é comandado por um negro, o eletricitário Sebastião Arcanjo, comandante da Ponte Preta. Quantos executivos de futebol são negros? Técnicos? Poucos. Não pode ser normal.

Descrevi tais fatos para dizer o básico: a estrutura reinante no futebol fornece as condições para que Celsinho e outros sejam vitimas deste ato abjeto. Os autores de tais atrocidades sabem que um escudo sempre estará à disposição para protege-lo. E transformar vitimas em vilões.

Pouco adianta solidariedade isolada ou nota de repúdio. Não leva a lugar nenhum tratar o assunto do racismo aqui e ali ou realizar um debate de 20 ou 30 minutos na TV por assinatura e nada mais. Inócuo.

Sem uma ação firme e decidida dos jornalistas esportivos e da estrutura do futebol brasileiro na busca de ações e medidas  que mudem para valer o panorama de negros e negras no Brasil, nada vai mudar. Nossa única tarefa será adivinhar quem será o próximo que terá sua alma ferida nesta guerra sem fim.

(Elias Aredes Junior- foto  Roberto Parizotti: fotos públicas)