No dérbi campineiro, Dona Ester, minha mãe, será a eterna camisa 10

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Eu já estava acostumado. Dia de Dérbi e eu sabia que ela iria no meu quarto. Morava no Jardim Amazonas, em Campinas-SP. Quando me casei e me mudei para Sumaré, também sabia que o telefone iria tocar. O diálogo seria o mesmo. Sempre.“É dia de dérbi né!? É perigoso hein…Toma cuidado”. Em determinados jogos, quando a violência nas ruas era mais intensa, ela não se sossegava enquanto eu não estivesse em casa. A partir do instante que virei comentarista esportivo, ela não perdia uma transmissão em que estivesse envolvido. Exigia que levasse os exemplares dos jornais com matérias de minha autoria sobre o clássico e de outros jogos. Chamava ela de Dona Ester. Minha mãe.

Sabia o motivo de sua preocupação e envolvimento. A cada ida minha ao estádio, fosse no Majestoso ou no Brinco de Ouro, ou a cada vez que pronunciava qualquer sílaba no microfone de qualquer emissora, Dona Ester vibrava. Abria o sorriso das vitoriosas.

Dona Ester nasceu em família pobre. Só teve o quarto ano primário antes da chegada da fase adulta. Depois fez o ensino fundamental por intermédio de supletivo. Em meados de 1983, colocou na cabeça que atuaria na área da enfermagem. E realizaria um sonho: formar os dois filhos, negros, em cursos universitários. Não tinha Prouni, Fies, bolsa, financiamento, nada. Ela só tinha a si mesma e a determinação de seus filhos, um menino e uma menina.

Ela foi à luta e aos poucos o sonho deixou o campo da teoria. Fiz vestibular em 1991. Fui para sentir o grau de dificuldade do exame. Passei. PUC-Campinas. Universidade privada. Pois ela pôs na cabeça que o filho não deixaria a chance escapar. Emprestou dinheiro, moveu mundos e fundos e pagou a matricula e cada uma das mensalidades. Por quatro anos.

Fizemos um acordo: “Se você ficar em dependência em qualquer matéria nós trancamos a matrícula. E não vamos comprar roupa por quatro anos”. E assim foi feito. Eu de minha parte, abri mão do dinheiro que meu pai me dava todos os dias para comprar um lanche na Faculdade na hora do intervalo. Acumula o dinheiro durante a semana e toda sexta-feira desembarcava em uma livraria no centro da cidade para adquirir um livro. Qualquer livro. Foi assim que aos trancos e barrancos eu aprendi a escrever de modo minimamente decente.

A formatura veio em 1994. Quando consegui um emprego mais estável, de um jeito ou de outro, ajudei minha mãe a pagar as despesas da faculdade da minha irmã. Ao final, Dona Ester conseguiu. Formou os dois filhos em um curso superior. Subverteu as estatísticas. Derrotou o preconceito e a exclusão. Por nocaute.

Ao revisitar esta história, eu passei a entender porque ela queria acompanhar cada passo profissional dos seus filhos. Infelizmente, ela não teve tempo de desfrutar totalmente do seu legado. Foi embora no dia 23 de setembro de 2011. Coincidência ou não, logo depois passei a viver os melhores anos da minha trajetória profissional.

Então, a cada dérbi, o meu ânimo e disposição são renovados. Sei que ao descrever cada lance, ela estará comigo.

Simultaneamente, eu fico com uma “inveja doce” dos milhares bugrinos e de pontepretanos que vão acompanhar o clássico deste domingo, dia 08 de maio, com suas mães. Que delicia deve ser o ato de comparecer ao Brinco de Ouro, sentar na arquibancada, comprar uma pipoca ou refrigerante e vibrar ao sofrer ao lado de quem lhe colocou no mundo. Que privilégio deve ser após a partida levantar-se da arquibancada e ir para casa da mãe e esperar a janta. Ou pedir uma pizza e degustar a iguaria ao redor da mesa. Para falar do Guarani, da vida, de tudo aquilo que está conectado desde o ventre.

Você, pontepretano, não fique triste porque não pode ir ao estádio. Se sua mãe estiver viva e com saúde, não existe nada melhor do que ir na casa dela ou recebê-la no seu lar e ligar a televisão para presenciar um jogo que é mais do que um clássico: é um elo que une almas, corações e mentes. Independente do resultado, saiba que você, após o apito final de Luiz Flávio de Oliveira fará algo que tem valor maior do que qualquer gol ou vitória: um beijo e um abraço de quem sua extensão.

Ao bugrino e ao pontepretano que não tem mais a mãe neste plano terreno, assim como eu, dou uma dica: encha o coração das lembranças de outros dérbis vivenciados ao lado destas pessoas únicas e inesquecíveis. Recorde cada frase de carinho ou abraço a cada gol. Tudo será mais mágico, potente, amoroso. Como o futebol deve ser.

Futebol cansa. Desgasta. Arrebenta. Ultimamente, tenho mais motivos para chorar do que para sorrir. Até em virtude do que vejo e vivencio no Jornalismo Esportivo e nos bastidores da bola. Só que ao relembrar estes momentos e recordar minha trajetória, eu concluo: eu não tenho direito de desistir. Preciso contribuir, mesmo que minimamente, pela construção de um futebol mais limpo, justo e digno. Não posso largar no meio da estrada algo viabilizado com tamanho sacrifício.

Posso ficar chateado com o futebol. Com o dérbi jamais. É mais do que um jogo. É a renovação de esperança para quem deseja um futebol de tudo e de todos. Como a “Dona Ester” queria. Feliz Dia das mães para todo mundo.

(Elias Aredes Junior-na foto, eu no colo de minha mãe com alguns meses de vida)