Até quando o Guarani vai viver de ilusão?

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O Guarani está eliminado da Série A-2 do Campeonato Paulista. O torcedor bugrino lambe suas feridas e mostra-se inconformado com a nova frustração. Há quatro anos o Alviverde não participa de uma fase decisiva de competição oficial ou consegue terminar na zona de classificação de uma competição por pontos corridos. Dessa vez, nem a falta de dinheiro pode ser colocada como desculpa. Os aportes mensais da Magnum acontecem todos os meses. Então, o que acontece?

Colocar a culpa em Waldir Lins, Horley Senna, Pintado ou qualquer outro componente de tal estrutura é fácil. Até óbvio. Minha proposta é diferente. É preciso tocar em feridas, apontar atitudes que colaboram muito mais para o clube estagnar-se do que para conseguir um resultado satisfatório nos gramados. Quem é o protagonista de tal cenário? Sim, é dele que estamos falando, o torcedor.

Não há como fugir da constatação. Desde a saída de Marcelo Mingone e a posterior entrada de Álvaro Negrão e a chegada ao poder da atual diretoria, o torcedor bugrino tomou uma atitude estranha e por vezes incoerente com um país democrático: não aceita críticas.

Uma parte relevante da torcida acredita que análises que mostram perigos, falhas e problemas que no futuro vão cobrar sua fatura é fator para desestabilizar o ambiente. Um sentimento de perseguição foi detonado na coletividade bugrina contra profissionais de imprensa focados em informar ou analisar os fatos como eles são, sem querer enfeitar para um lado ou para outro.

Em contrapartida, bugrinos tradicionais, históricos, conhecidos e conscientes do quadro vivido pelo clube, ao emitirem uma critica a diretoria de plantão foram implacavelmente perseguidos. Não podiam falar. Não podiam criticar. Não tinham permissão para apontar o que poderia dar errado. Um sentimento de linchamento coletivo tomou conta do Brinco de Ouro e de suas arquibancadas.

Resultado: há dois anos o quadro ficou mais latente, o Guarani não conquista nada de relevante e vive um conto de fadas. Recusa-se a acreditar que sua estrutura de trabalho precisa ser aprimorada, que os jogadores podem e devem receber maior respaldo para atuarem no gramado e que a venda do Brinco de Ouro não será a solução de todos os males se não for acompanhada de uma atualização de métodos de gestão.

Entenda: o atraso de estrutura não é de hoje. Desde a chegada de Leonel Martins de Oliveira ao poder, em 2006, que o Guarani conduz seu processo de decisão com base em métodos de gestão da década de 1980. Mesmo com a instituição do Conselho de Administração, a figura mais poderosa do clube gira em torno do presidente e há 10 anos tudo gira em torno de duas ou três pessoas para decidirem os rumos do Guarani. Isso não pode dar certo. Deveriam entender que os clubes modernos concedem protagonismo aos seus subordinados e depois são cobrados. Executivos de futebol, alías, existem para isso. Em resumo, um erro crasso.

Tem saída? Sim. O passo fundamental é a torcida do Guarani deixar de expressar indignação a cada eliminação e voltar logo em seguida ao seu conto de fadas. É preciso adotar uma postura cidadã. Grupos deveriam ser formados para buscar sugestões de aprimoramento de gestão e encaminha´-las a diretoria. O programa de sócio torcedor deveria receber uma adesão maciça. Não só para encher os cofres do clube, mas para ser um canal de reivindicação de melhoria dos serviços prestados.

Empresários e executivos com amor ao Guarani deveriam buscar aprimoramento em cursos universitários e de pós graduação e em médio e longo oferecerem-se para prestarem serviços ao clube. E em longo prazo viabilizar uma alternativa de projeto ao Guarani.

Difícil é aceitar que um clube de tamanha tradição viva de ilusão e de promessas que nunca se concretizam. Duro é entender porque uma agremiação queira agarrar-se ao passado e viver um presente que não condiz com a realidade. Impossível compreender que, ao invés de querer alterar tal estado de coisas, um contingente relevante da torcida queira viver entorpecida por um doping fantasioso que uma hora ou outra produzirá uma ressaca de consequências imprevisíveis.

Só a verdade nua e crua pode restabelecer o Guarani no seu patamar merecido. Quem não entender tal preceito dificilmente conseguirá êxito.

(análise feita por Elias Aredes Junior- Foto de Rodrigo Villalba-Memory Press)

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