Especial: Paulinho, siga em frente e perdoe os preconceituosos. Eles não sabem o que fazem!

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Posso ser resumido em poucas palavras: Cristão, protestante, progressista, jornalista esportivo e brasileiro. Por dotar de tais características pessoais foi que, ao ver o quarto gol de Paulinho, na vitória da Seleção Brasileira por 4 a 2, sobre a Alemanha, nesta quinta-feira, em Yokohama, no Japão, só queria dirigir uma palavra de perdão ao jogador. Deveria ser a atitude de todo Cristão Evangélico consciente e cidadão.

Adepto do candomblé, Paulinho é exemplo de resistência. Imagino o que ele deve ter passado ao professar a sua fè (ou filosofia de vida, como ele diz) quando se deparou com Cristãos Evangélicos. Muitos, aliás, presentes nos vestiários do futebol brasileiro. Vários com consciência e tolerantes ao semelhante, mas muitos com postura violenta em direção aos adeptos das religiões de matriz africana. Espero que Paulinho só tenha convivido com a primeira opção. Mas é difícil acreditar nesta hipótese.

Em um país democrático, a opção religiosa de cada um deveria ser algo pessoal, sem consequências. Não é assim. No futebol brasileiro e na vida em sociedade, quem se declara adepto das religiões de matriz africana comete ato de coragem. Em boa parte por culpa dos Cristãos Evangélicos. Sim, nós, Cristãos protestantes somos cumplices deste estado de opressão velada vivido por Paulinho  e por muitos que exercem a mesma opção religiosa.

Não falo de orelhada. Frequento e frequentei diversas denominações evangélicas. Descrevo aqui um triste testemunho. Desde criança, nós, Cristãos Evangélicos, somos ensinados a odiar as religiões de matriz africana. Em nome de um “combate a feitiçaria” e ao “inimigo” somos ensinados a oprimir, constranger e retirar das pessoas o direito a escolher a opção religiosa que acalenta a sua alma. Ou você é Cristão, Protestante ou não presta. Cidadão de segunda classe. Equivoco total. Um absurdo se levarmos em conta algo simples e direto: como contestar a biografia de um Papa Francisco? Ou de um Dom Paulo Evaristo Arns? E Mãe Menininha? Chico Xavier? Não dá aceitar, concordar e entender.

Muitos Cristãos Evangélicos não se importam. O que interessa é impor doutrina goela abaixo. Algo que nem Cristo fez. Leia a Bíblia e verá que tenho razão.

Reitero: frequento uma denominação evangélica. No entanto, eu não tenho direito de impor a ninguém a minha opção. Se o atacante  Paulinho abraça o candomblé a  tarefa é que me cabe é única: encontrar-se na trincheira ao lado de quem luta pelo cumprimento do artigo 5º da Constituição Brasileira, que confere plena liberdade religiosa. Constituição que dá carimbo:  o estado é laico.

Paulinho certamente não quer obrigar ninguém a fazer nada. Só quer ser ele. E ser feliz. Que o futebol brasileiro volte a ser o mosaico sadio de todos os credos. Que o católico faça uma jogada genial, o espirita dê um drible desconcertante no adversário, o budista  exiba poder de decisão nos lances decisivos e o muçulmano batalhe pelo espaço no gramado e seja respeitado. Em tudo.

Que Paulinho balance a redes outras vezes, reforce a presença de Exu em todos os passos dele no Japão. De minha parte, vou pedir perdão a Deus por tanto dissabor que este rapaz deve ter passado. E requisitarei que Deus lhe abençoe. Sempre. De preferência, ao final, com a medalha de ouro no peito.

(Elias Aredes Junior- Foto de Lucas Figueiredo-CBF)