Análise Especial: a diretoria do Guarani tem noção do esforço e do sacrifício do torcedor?

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Imagine você sair no domingo pela manhã para assistir ao seu clube do coração. Você se prepara. Separa a melhor camisa, a bandeira preferida e marca o ponto de encontro com seus amigos. Desmarca compromissos no dia anterior só para não se atrasar. Não quer perder um minuto. 

Ao chegar ao estádio, o bate papo descontraído, a cerveja gelada e um acordo tácito: nada de temas negativos. Nenhuma reclamação. Alto astral. Não se pode perder o clima positivo. É preciso empurrar a equipe no rumo da vitória e da redenção. E todo esse ritual é feito com o seu filho a tiracolo. Você precisa transmitir os seus conceitos e a sua paixão para ele. Ele vai empunhar o galardão. 

Ao andar pelos corredores do estádio corroído pelo tempo, alguém lhe fala que no dia anterior o presidente do clube teve uma reunião com os lideres de torcidas organizadas. Encontro tenso, com cobranças fortes e pedido por mudanças de postura. Acuado e sem saída, o dirigente cedeu em alguns pontos e prometeu lutar por outros. Ou seja, era tudo que você queria. O dirigente finalmente ouviu o torcedor. Não ficou em cima do muro ou fez papel blasé. 

As frases pulam na sua mente: “Não tem como dar errado”, “Hoje é dia de vitória”, “Vamos conseguir a redenção”, entre outras expressões que pulam e aparecem no vocabulário quando a paixão e o fanatismo dos torcedores ditam as tendências. Você estava de consciência tranquila. Tudo aquilo que estava ao seu alcance você fez. Sem pestanejar. 

Quando a bola rolou, você até pensou que tudo seria resolvido de modo rápido. O volume de jogo, as oportunidades criadas, a bola na trave, o cerco ao adversário…o dominio era latente. Massacrante. 

Mas conforme o tempo foi passando, o marasmo foi instalado. Um erro de passe ali, uma conclusão torta acolá, um contra-ataque do adversário aqui e o que era esperança vira pânico.

Parece que seu esforço não valeu de nada. Absolutamente. 

Vem o segundo tempo e o pesadelo parece que não tem fim. O adversário, também ameaçado pelo rebaixamento encontra uma brecha e em um chute de rara felicidade o visitante inaugura o marcador. A derrota mostra seus dentes. A zona do rebaixamento abre um buraco ainda maior. 

É verdade, logo a seguir vem o empate em cobrança de penalti. Que quase não aconteceu porque o goleiro quase pegou. Mas a rede balançou. É o que importa. 

Os minutos subsequentes não resolveram nada.

Pelo contrário.

O mesmo marasmo, limitação técnica e fracasso nas finalizações deram o tom. O juiz apita o jogo e o final da partida é decretado. Mais dois pontos perdidos. O que era um fortim, alçapão, uma aldeia pronta para destroçar os oponentes virou uma colônia de férias para os intrusos.

Você está ali indignado, cabisbaixo, triste, frustrado. Afinal, parece que seu esforço não valeu nada. E sua cabeça vira um vulcão ao olhar para o gramado e perceber que para a maioria dos jogadores não aconteceu nada.

Parece que ninguém perdeu dois pontos. Afinal, como entender a tranquilidade dos atletas e que faz até entabular uma resenha com os adversários?

Ou que faz um jogador desferir insultos as arquibancadas como se você, torcedor fosse o vilão? É de deixar qualquer um atordoado e sem rumo. Confusão reforçada com a entrevista coletiva do treinador.

Não, ninguém contesta sua competência e busca do melhor. Mas parece que encontrar-se na zona do rebaixamento e sem exibir força para construção de reação parece insuficiente. Diante disso, só resta voltar para casa e salvar o restante de domingo que existe pela frente.

Sim, a descrição feita até agora é do empate do Guarani com o Brusque com 1 a 1, em jogo realizado na manhã de domingo no Brinco de Ouro. Não serei hipócrita ou inconsequente de dizer que este sofrimento poderia ser de um corinthiano, palmeirense, santista, são paulino ou de qualquer outra equipe. Não é.

O sofrimento do torcedor bugrino é único. Um sofrimento forjado por 10 rebaixamentos, dirigentes incompetentes e vaidosos e a perspectiva de saber que nem casa esse torcedor tem mais. E nem sabe qual será a próxima.

Um torcedor que clama, grita, apela e faz suplica por atenção. Que quer coisas simples e banais como: times competitivos, ingressos acessiveis e dirigentes que tentem encurtam a distância para as arquibancadas.

Hoje, quem frequenta a arquibancada não sofre apenas pela bola que não entra. Ele é inconformado pela ferida forjada na arquibancada e que não é cicatrizada. Ele chora e tem um pranto quase infinito pela ausência de felicidade. 

O que os dirigentes, jogadores e comissão técnica não entendem é algo básico: não basta viver o Guarani. É preciso senti-lo.

Em toda sua plenitude.

Sem isso, não há como chegar ao paraíso.

Ainda dá tempo.

Faltam 18 rodadas.

Que o Guarani entre em campo daqui em diante e seja uma equipe sintonizada com o seu torcedor. Ele merece.

(Elias Aredes Junior-Com foto de Thomaz Marostegan-Guarani F.C)