Artigo Especial Ponte Preta: Caça ás bruxas ou apuração de responsabilidades? Por Pedro Maciel Neto

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O brilhante jornalista Elias Aredes, a quem tenho a alegria de chamar de amigo, perguntou, em recente artigo publicado no seu blog, “De quem é a culpa pela atual situação da Ponte Preta?” e afirma: “Os conselheiros precisam buscar a resposta”.

A resposta à pergunta é simples: todos os diretores, membros do conselho fiscal e conselheiros são responsáveis pelas consequências de suas decisões, evidentemente na extensão da sua competência.

Mas há um fantasma nos escaninhos do Majestoso que rende muita conversa mole e por isso deve ser enfrentada rapidamente: a dúvida.

Há uma dúvida silenciosa, mas, paradoxalmente audível até em Marte, que assombra a torcida e parte dos conselheiros, e diz respeito ao endividamento do clube, bem como acerca de decisões tomadas pelas últimas diretorias e suas consequências.

Ademais, um dos compromissos da chapa vencedora é a realização de uma auditoria que haverá de apurar tudo isso, bem como indicar eventuais erros, omissões e decisões que causaram tenham causado prejuízo à instituição, o tamanho do prejuízo e os responsáveis, num necessário e corajoso movimento que colocará “os pingos nos ís” e afastará os fantasmas (ou os confirmará, afinal, como me ensinou a minha avó: “não se arruma o armário sem desarrumá-lo primeiro, tem sem tirar tudo de dentro primeiro”.

Mas não haverá “caça às bruxas”. Nós pontepretano somos sérios demais para isso, haverá trabalho sério, feito por empresa de auditoria independente para o bem da Ponte Preta.

Para quem não lembra: o termo caça às bruxas é utilizado para designar historicamente a perseguição ocorrida às mulheres que supostamente possuíam poderes sobrenaturais, eventos ocorridos durante cerca de quatro séculos a partir do século XV, quando a Igreja liderou uma grande investida contra mulheres que, de alguma forma, haviam ferido as expectativas sociais, políticas ou religiosas; elas eram normalmente de classe social mais humilde. No século XIII, a Igreja criou o Tribunal do Santo Ofício – a Santa Inquisição – utilizou mecanismos de perseguição e punição.

Atualmente, a expressão caça às bruxas diz respeito especificamente à perseguição sistemática contra algum grupo.

Na PONTE não há espaço para caça às bruxas, nem para a persistente omissão de seus dirigentes, sejam eles diretores, membros do conselho fiscal ou, e especialmente, de conselheiros, pois somos todos responsáveis pelas nossas deliberações e pelas nossas omissões.

Portanto, não é o caso de falarmos em “culpas”, mas sim em “responsabilidades” para, após apuração honesta, se for o caso, buscarmos a reparação dos danos daqueles que o causaram, dando publicidade a tudo quanto ocorreu, de certo ou de errado.

Não há necessidade de perguntar “de quem é a culpa”, nem de apontar o dedo para quem quer que seja, pois a responsabilidade é das diretorias, especialmente de seus presidentes e diretores financeiros, e dos demais dirigentes e conselheiros na extensão da lei e da sua participação efetiva na administração, é assim que funciona.

Foram as decisões da diretoria, referendadas pelo conselho, que causaram o caos financeiro e de gestão, e quem as tomou, ou quem se omitiu, é o responsável.

O conselho poderia (e deveria) ter sido o órgão a vetar decisões errôneas, mas aos conselheiros sempre chegaram fatos consumados, pois, a cultura do presidencialismo plenipotenciário, simpático à autocracia, sempre impediu a participação dos conselheiros que, pelo menos nos onze anos que estou lá, sempre foram tratados como tolos.

Ao querido Elias respondo: não faltaram cobranças, nem pedido de explicações por parte dos conselheiros, há dezenas de requerimentos de conselheiros e conselheiras, devidamente protocolados, em duas vias, que comprovam isso.

Esses requerimentos JAMAIS foram levados ao conhecimento do colegiado, foram solenemente esquecidos em alguma gaveta, em algum armário ou, quem sabe, transformado em papel de rascunho.

Espero que o presidente do conselho desarquive todos os requerimentos e os responda, e que o “engavetamento” seja uma prática banida.

Eu mesmo fiz protocolar mais de uma dúzia de pedidos, com dezenas e dezenas de questões e NUNCA recebi uma resposta, o SÓ DERBI noticiou o fato em fevereiro e abril de 2019.

E nos vinte e cinco dias que substitui o presidente do conselho deliberativo (que adoeceu durante a crise que culminou na renúncia do presidente Abdalla e afastamento definitivo do diretor comercial), encontrei num armário quase duzentas de fichas de adesão ao conselho, assinei e encaminhei todas, não havia razão para tal desídia, salvo o prazer pelo descumprimento dos princípios da legalidade e da impessoalidade.

Outro aspecto é a absoluta falta de estrutura da mesa do conselho. O conselho, órgão superior à diretoria, órgão que a elege, não possui funcionário ou funcionária, computador, sala de trabalho, é, portanto, refém e estruturalmente subordinado à diretoria que, estatutariamente, está subordinada a ele.

Parece difícil entender e acreditar? Mas essa é a verdade.

Não me arrisco a opinar no futebol profissional, sou um torcedor da PONTE, o que já é bastante complexo, mas a vitória da oposição nas eleições do ano passado representa para mim o fim da presidência plenipotenciária, estamos no século XXI e o dever do diretor executivo é informar e compartilhar decisões com quem o elegeu, ou seja, o Conselho Deliberativo.

Nós torcedores pontepretanos desejamos um time competitivo, um clube organizado e um espaço de convivência que, validamente, proporcione momentos de alegria, os quais o tempo transforma em histórias que contaremos aos filhos, netos e aos amigos.

A PONTE PRETA tem hoje um PLANO DE TRABALHO, de um Plano de Negócios, o clube está “pensado” para os próximos dez anos e ao conselho, renovado, incumbe COBRAR o cumprimento desse planejamento.

Mas o Conselho tem que ser protagonista da mudança e não informado pela imprensa do que acontece no clube, pois legalmente o conselheiro tem suas parcelas de responsabilidade.

Fato é que o futebol envolve, em sua constituição, características culturais, econômicas, políticas e sociais, que o tornam um esporte massificado socialmente e com forte influência no cotidiano de muitas pessoas, e mesmo reconhecendo que cada um dá o melhor de si, faz pelo menos uma década que as direções da Ponte Preta renunciam às possibilidades de modernizar seus processos internos e preparar-se responsavelmente no presente para o futuro.

Isso vai mudar, se não mudar será o fim.

O futebol é uma manifestação cultural e popular, é uma paixão participativa entre seus adeptos, é um processo sociológico, que como tal foi sofrendo transformações até chegar ao cenário contemporâneo, no qual passou a ser tratado como um gigantesco negócio, situação paradoxal para os clubes que não apresentam fins lucrativos, porém, que possuem muitos empresários e agências de marketing esportivo lucrando sobremaneira em função dos valores gerados.

A tarefa dessa gestão é conhecer o passado – dar publicidade a ele, além de responsabilizar quem deva ser responsabilizado, buscando reparação se for o caso -, sobreviver ao presente e preparar-se para o futuro implantando uma gestão moderna e apostando grandemente na formação.

A PONTE precisa de gestão, pois paixão não lhe falta, me refiro à governança corporativa.

“Governança Corporativa”, não é apenas um dos termos da moda, é o conjunto das melhores práticas, úteis para alavancar os resultados de uma organização.

Por tratarem das melhores práticas para administrar um negócio, os métodos de Governança tornaram-se fundamentais para avaliar os riscos e o retorno de um investimento. Inclusive este é um dos principais motivos que tem dado bastante evidência ao tema quando se fala em eficiência e transparência na gestão.

O que foi eleito ano passado foi um plano de trabalho, que no curto e médio prazo nos obriga a:

  1. O fim do presidencialismo plenipotenciário, com a democratização das relações internas;
  2. A realização de uma auditoria independente, para tomada de providências, se o caso;
  3. Transformação do CT atual num CT moderno, com objetivo fundamental de voltar a ser um clube formador, aumentando significativamente o valor que o clube arrecada com a venda de jogadores, dos 8 milhões ao ano, para 200 milhões em cinco ou oito anos;
  4. Responsabilidade fiscal;
  5. Plano para saneamento do endividamento fiscal, trabalhista e civil;
  6. A implantação de mecanismos de gestão modernos e necessário (governança);

E há ainda os objetivos de longo prazo, os quais só serão alcançáveis com a implantação de mecanismos de gestão modernos e necessário (governança).

Portanto, a apuração dos responsáveis é apenas um dos itens de uma extensa lista de compromissos assumidos pelos conselheiros eleitos, que confiaram ao Presidente Marco Eberlin o seu cumprimento.

Pedro Benedito Maciel Neto, advogado, pontepretano, Conselheiro Eleito e suplente de Nato na AAPP – pedromaciel@macielneto.adv.br