O entrevistador Mano Brown: um presente para o jornalismo brasileiro

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Pedro Paulo Soares Pereira é nome comum. Tipicamente brasileiro. Pode ser encontrado em cada esquina, ponto de ônibus ou nas ruas periféricas do Brasil. O nome esconde um dos ícones do Rap brasileiro. Tudo resumido em duas palavras: Mano Brown. Líder dos Racionais MC e referência para milhões de jovens espalhados em todo o país, este artista singular caminha agora pela trilha do podcast.

Intitulado de “Mano a Mano”, o podcast é veiculado todas as quintas-feiras e com previsão de 16 episódios. Promete personalidades diversas da sociedade brasileira.  Com três episódios veiculados, dá para dizer sem medo de errar: “Mano a Mano” não é um programa de entretenimento e sim a principal novidade do jornalismo brasileiro em 2021.

Não exagero.

Mano Brown coloca-se como entrevistador e emite respeito pela profissão de jornalista. Cita os profissionais que lhe apoiam na difícil arte de entrevistar. Estabelece uma relação honesta com o interlocutor e o ouvinte.Quando o microfone é aberto, a revelação: Mano Brown é entrevistador de mão cheia.

Incisivo, curioso e que busca a profundidade. Não se contenta com o superficial e trata todos com delicadeza. No episódio inaugural com Karol Konká, Mano Brown conseguiu abordar toda a trajetória da cantora sem julgamento. Sempre com a meta de mostrar que não há ali uma participante de reality show e sim uma artista complexa e densa.

No bate papo com o médico Dráuzio Varella,  Brown  não se contentou enquanto não soube da sua trajetória no Brás, local em que foi criado. Sendo direto e sem rodeios, Brown estabeleceu um diálogo revelador sobre as mazelas, problemas e soluções para o sistema prisional brasileiro.

O ponto alto ocorreu na entrevista com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O politico petista  teve oportunidade ímpar de explicar o seu relacionamento com os Cristãos Evangélicos e as Religiões de matriz africana. Sem contar sua obstinação em querer arrancar de Lula os detalhes da  sua situação financeira  e como foi atingida após o processo da Lava Jato.

Tanto com Lula como com os outros entrevistados, tudo isso foi empacotado em um balanço interessante: em alguns instantes, uma conversa íntima e que deixa o entrevistado à vontade; em outras, o questionamento para deixar o personagem desconfortável e que lhe deixa no ponto de fazer algo para sair daquela situação. De preferência, com uma revelação.

Sem querer, Mano Brown exerce o papel de jornalista clássico: crítico, curioso, incisivo e independente. Defeitos? Em algumas passagens das entrevistas,  a formulação das perguntas ganha ares de tese e o próprio Brown fica um pouco perdido. É pouco para destruir os ganhos positivos da sua nova empreitada. Você deve ficar curioso e questionar: mas por que este tema é tratado em um espaço que tem a preferência pelo esporte?

Quando entra em campo nas conversas, o futebol é a cereja do bolo. Mano Brown insere o futebol não como algo mercantilista ou brincadeira de criança, mas como um espaço que ajuda a decifrar a alma da pessoa e sua conexão com o mundo.  Algo que ficou patente nas entrevistas com o são paulino Dráuzio Varela e o corinthiano Lula.

Nessas entrevistas você sai com a impressão de que a vida é complexa, rica e diversa. Mano Brown ajuda a decifrar. Uma missão que fica a cargo de qualquer  jornalista. Ótima notícia ao ofício.

(Elias Aredes Junior-foto de Pedro Ernesto Guerra Azevedo/Santos FC)