Carta aberta ao técnico do Guarani

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Caro Pintado,

Imagino que a vida de treinador não seja nada fácil. A rotatividade do mercado, a pressão da torcida por resultados, o imediatismo da vida moderna… são tópicos para levarmos em consideração ao debatermos sua profissão.

Não é fácil não ter tempo para trabalhar ou mesmo ter que se adaptar as limitações de seu elenco. Sabemos que a pressão é ainda maior por estar o senhor no comando do Guarani, clube centenário, de tradição, pelo qual já passaram ídolos inesquecíveis, e cuja história encontra seu ápice no título do Brasileiro de 1978.

Tem ainda o fato de que a torcida está mais exigente, mais impaciente porque, espero que compreenda, os anos não tem sido fáceis no Brinco de Ouro.

Aliás, a torcida tem todo o direito de preocupar-se com o clube. Tem direito de temer o rebaixamento para a Série A3 do Estadual. Os torcedores já viram de tudo. Por isso, não só podem como devem manifestar seu descontentamento com a atuação do time.

E você também, como treinador, tem o direito de estar preocupado com seu emprego, com ser o único responsabilizado por algo que é fruto de um trabalho em conjunto.

Aliás, e em que pese a possibilidade de uma recuperação na competição (já que o Guarani está há apenas três pontos do 4º colocado), é inegável que o futebol apresentado por seus comandados está abaixo do esperado. Ontem, na derrota para o Paulista, por exemplo, em 90 minutos de partida, o Guarani acertou apenas um chute na direção do gol.

O time até mostrou disposição. Mas não deve ter colocado em prática muito do que foi treinado. Afinal, o Guarani teve dificuldade de articular jogadas e insistiu nos avanços pelas laterais, nas bolas alçadas na área, ainda que, claramente, não houvesse o “homem de referência” necessário para finalizações.

Veja bem, não estou julgando seu trabalho. Estou comentando. Estou analisando. Este é o trabalho do repórter esportivo. O trabalho de questionar. Mas ontem, o senhor realmente não estava em um bom dia. Errou a mão com o time, dentro do gramado. E errou a mão ao tentar impedir o repórter Rafael Pio, da CBN/Globo, de perguntar sobre o desentendimento seu e do atacante Flávio Caça Rato, exibido pelas câmeras do canal SporTV.

As imagens mostram sua irritação. As imagens mostram que o seu atleta não gostou de ser sacado do time. E eu até acho esse comportamento positivo porque o vejo vinculado com a vontade de mudar, de somar pontos.

Porém, não podemos justificar o que não tem justificativa. Seu comportamento ontem, discutindo com a imprensa, não faz juz ao currículo de um técnico experiente como é. Seu comportamento revela que a torcida tem motivos para preocupar-se, motivos que vão além das limitações de ontem.

O senhor é o “comandante deste navio” e, como tal, deve servir de exemplo para toda tripulação. Para todos os passageiros.

(análise escrita por Adriana Giachini- Foto de Rodrigo Villalba-Memory Press)